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de Josenildo Francisco de Lima

Presbítero da Arquidiocese da Paraíba

 

Após seis meses do pontificado do Papa Francisco, Jorge Mario Bergoglio, a imprensa alardea “mudanças” na Igreja, porque o trabalho da comissão dos oito cardeais cumpriu o tempo proposto pelo Papa, para que lhe fosse entregue um relatório da atual conjuntura eclesial com propostas para uma administração mais colegial. Cá de fora, sem conhecer o mecanismo da administração eclesiástica, fico me perguntando: de que mudanças estão falando? Depois, que mudanças são realmente necessárias e possíveis na Igreja? A voz laica da imprensa é capaz de passar uma ideia clara do que pensa o Papa e das reais necessidades da Igreja? A qualquer homem e mulher de Igreja, aquelas pessoas que estão de fato engajadas na vida eclesial, parece estranho todo este barulho. Por uma razão muito simples: o grande desafio mesmo para a Igreja e viver a radicalidade do Evangelho no seguimento de Jesus. Então, é preciso estar por dentro e não apenas ver uma instituição milenar, cheia de contradições, com uma longa história de poder e todas as contradições que o poder carrega. 

 

O concílio Vaticano II, originado da lúcida visão do Papa João XXIII, que via chegada a hora de uma “aggiornamento” (atualização), propôs cinquenta anos atrás uma grande reforma eclesial, ainda em andamento. Do Concílio, a mais profunda e significativa reforma parecia mesmo re-ver o conceito de Igreja. E, o Concílio disse a “Igreja é povo de Deus” (LG 8). Este conceito redefine tudo, porque a Igreja não é mais vista tão pura e simplesmente como uma sociedade perfeita, hierarquicamente constituída, mas como “comunhão de pessoas”, como “ícone” da Trindade (Pai, Filho, Espírito Santo). Uma comunhão de pessoa que se realiza nas relações de amor e não de poder. Quando descreve a Igreja numa perfeita harmonia de membros, análogo ao corpo humano, um organismo vivo de carismas, serviços e ministérios, Paulo diz qual o carisma mais elevado, ou seja, o estado de perfeição do “Corpo Místico”, o amor (I Cr 10-15). A eclesiologia de Paulo segue a linha da eclesiologia joanina, que também vê a Igreja como um “organismo vivo”, na perfeita comunhão dos seus membros (Jo 15, 1ss). Paulo diz no seu tratado eclesiológico que do corpo Cristo é a cabeça. João, por sua vez, diz que da árvore Cristo é o tronco. Da cabeça/cérebro o corpo recebe todo comando; do tronco os galhos recebe a seiva. Em ambos os casos, a vitalidade. 

Para o Concílio Vaticano II, levando em consideração a vocação própria do ministério episcopal e a imensa responsabilidade dos bispos como colégio apostólico, o melhor meio de expressar a comunhão é vivendo a prática da colegialidade. Ou seja, sob o pastoreio do bispo de Roma, a Igreja que preside a Igreja na caridade, a grande comunhão do colégio episcopal é responsável pela vida e pelo dinamismo eclesial. Entender isto não foi fácil já no decorrer do Concílio, porque havia quem entendesse que apenas ao Papa foi dado pelo Senhor o poder de pastoreio ordinário, pleno e absoluto. De outra parte, compreendendo o papel do Papa na grande comunidade de fé e devotando-lhe todo respeito e obediência, muitos compreenderam – e foi a grande maioria dos padres conciliares – que a colegialidade episcopal é o modo mais perfeito de se viver e praticar a comunhão nas decisões principais que concernem a toda vida da Igreja. 

Não adentrando agora, porque não vem ao caso, nesta questão de profunda ordem eclesiológica e canônica, o que é importante é perceber que o Concílio buscou, assistido pelo Espírito Santo e inspirado por ele, o que significa por sua própria natureza a comunidade eclesial: comunhão de pessoas na relação de amor. Obviamente, a história não deixa a ninguém a ignorância de fatos reais em que Papas, agindo apenas sob a justificativa do poder ordinário, foram verdadeiros déspotas. A história do papado é maculada pelo pecado humano que mesmo os Papas, como todos os homens e mulheres, carregam em sua condição e natureza. E, não vale a justificativa de que o Papa é infalível em coisas de fé e moral, porque em se tratando de “política eclesiástica” isso não vem ao caso. Hoje, os escândalos que só se multiplicam e tornam-se públicos demonstram claramente que sozinho o Papa não é capaz de conduzir a política da Igreja. Ele deve aconselhar-se, buscar em conjunto com seus irmãos bispos os melhores caminhos, dar cada vez mais ouvidos ao grande corpo eclesial, aos leigos e leigas também, para que compreenda no exercício de sua função o que o Espírito diz à Igreja. A doutrina, o pastoreio do ministério pontifício, tudo o que o Papa é e representa é posto no contexto da vida eclesial e não fora ou mesmo acima do inteiro corpo, o que não teria o menor sentido. Nem sempre na Igreja o Papa foi considerado “infalível” (Concílio Vaticano I, 1869-1870). E, desde a antiguidade apostólica, sínodos episcopais, concílios universais e regionais, foram instrumentos de decisão. Depois, basta olhar para todo o aparado da cúria vaticana para se vê de imediato que o Papa não é senhor de todas as decisões. 

Numa última entrevista concedida pelo Papa Francisco ao jornalista Scalfari (24/09/2013), ele acusa, se é que podemos usar sem equívoco esta terminologia, a cúria vaticana de ser “vaticano-cêntrica”. E, diz mais e mais grave: “a coorte (pontifícia) é a lepra do papado”. Fico a imaginar como terão ouvido isto os “homens curiais”, tão zelosos e convictos do poder do Vaticano. O problema é que o Vaticano foi mais teologizado que a própria Igreja é um mistério teologal. Deste modo, tudo o que estava por trás dos muros vaticanos parecia perfeitamente santo e da mais perfeita vontade de Deus. João Paulo II especialmente fez uso de tal política que na recentíssima história eclesial os bispos estavam muito mais preocupados – parecem ainda – em ouvir “Roma”, que ao seu próprio rebanho. Nas últimas décadas, os bispos não passaram de “gerentes” do Vaticano, absolutamente condicionados pela vontade da cúria vaticana, preocupados em repetir tudo o que viesse de “cima”, absolutamente comportando-se como mandava as regras. Para ser bispo este era – ou é – um critério absoluto: estar afinado absolutamente à política vaticana. As Igrejas Particulares (diocese), feridas na mais perfeita e bela significação de sua identidade eclesiológica, não passavam – ou passam – de uma sucursal do Vaticano. Agora, está ai o Papa Francisco, mandando que os bispos se voltem para o seu rebanho, tenham o cheiro de suas ovelhas, sejam pobres, fiéis ao seu rebanho (porque o bispo é casado com sua Igreja), não sejam ambiciosos e carreiristas... 

A simplicidade do Papa Francisco, suas afirmações claras e objetivas parecem escandalosas. De um modo ou de outro, parecem escandalosas. Mas, o que se vê até aqui? Que este homem nada mais quer que a Igreja seja comunidade do Evangelho. Chegou se mostrando irmão, inclinando-se para pedir a bênção do seu povo, dizendo que na Igreja todas as pessoas são importantes, preferindo permanecer numa residência mais simples, onde possa estar junto com as pessoas, desejando uma Igreja pobre e para os pobres, rejeitando aparados renascentistas desde o vestir, sorrindo, telefonando ele próprio a amigos e outras pessoas, indo antes e primeiro de tudo aos mais pobres e sofredores, como em Lapedusa, escrevendo uma “encíclica” (carta pastoral) feita com mais gestos que palavras, andando em carro simples, sentando em cadeiras ao invés de tronos, falando mais em misericórdia e perdão que em pecado e condenação, julgando-se a si próprio – “quem sou eu para julgar” – quando questionado pela condição dos gays, condenando a perversidade do capitalismo, criticando com palavras impressionantes – “tenho nojo” – a vaidade, o luxo, o carreirismo do clero... A lista de atitudes e palavras, em seis meses de pontificado, é quase infindável. 

Francisco tem demonstrado uma experiência de Deus que não sei se a imprensa é capaz de perceber, porque esta é uma mística e não apenas uma questão administrativa ou de organização político-eclesial. Pregado o Evangelho que não sei se a sociedade atual, capitalista, consumista, hedonista é capaz de escutar realmente. Mostrado que antes de a Igreja acusar, condenar, ela mesma precisa de conversão. E, esta é a palavra chave: conversão. Não nos moldes do maralismo absurdo como se vinha interpretando até aqui. Porque conversão é mais, muito mais que não pecar, é amar ainda quando somos pecadores. O único e real pecado é não amar. Por isso, Francisco tem compreendido que o problema do mundo não é o pecado, analisado de um ponto de vista moral fundamentalista, mais o “sofrimento”. Seu pontificado vai seguindo uma linha de misericórdia que não é a de um movimento religioso fanático, mas de uma compaixão real pelo ser humano, porque “Lázaro” (sentado ao chão à porta do rico epulão) não é católico, protestante, mulçumano, budista, ateu... Lázaro é toda pessoa que sofre. E, nesta linha de compaixão, porque “as alegrias e esperanças, as tristezas e as angústias dos homens e mulheres de hoje, sobretudo dos pobres e dos que mais sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (GS 1), a Igreja deve ser toda expressão da misericórdia de Deus. Na verdade, a Igreja é “sacramentum miseridordiae”. 

Reforma (mudança, renovação, etc.), todos estes conceitos que cheiram a “grande novidade” do pontificado de Francisco, não podem ser mudanças restritas à cúria vaticana. Pouco, talvez, importe realmente as mudanças que acontecerem por lá. Mudança tem que acontecer na Igreja toda. Não se pode ficar olhando para o Papa Francisco como quem assiste ao ator de um grande espetáculo. Admirado como um homem de tanto poder, riqueza e influência pode ser “assim”. O medo é que o Papa dê apenas um espetáculo. Com o Evangelho na mão, todos os homens e mulheres de Igreja, absolutamente todos e todas, devem compreender que o Evangelho exige pobreza e simplicidade, que ao Papa é vergonhosa qualquer pompa, mais aos bispos e padres também, bem como a qualquer fiel. Escândalo mesmo é Papa andando de limusine, sentando em trono renascentista, vestindo-se como uma velha rainha, comportando-se como um grande imperador. Estranho é que Igrejas Particulares sejam alijadas no processo de escolha dos seus bispos; que o celibato continue uma disciplina obrigatória em pleno século vinte e um; que a mulher ainda tenha que implorar por plena participação na vida e nos destinos da Igreja; que liturgia seja o placo da vaidade humana; que títulos obsoletos ainda continuem sendo um prestígio clerical; que comunidade cristã seja reduzida a “paróquia” (uma estrutura igualmente obsoleta); que pastoral seja do dízimo apenas e das construções; que... que... que... que tantos outros quês sejam mais importante QUE O EVANGELHO.