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PRIMEIRA JORNADA DA SEMANA TEOLÓGICA PE. JOSÉ COMBLIN

Dando sequência ao trabalho organizativo da XVI Semana Teológica Pe. José Comblin (XVI STPJC), cuidamos de propor para nossa primeira Jornada, a realizar - se no Centro de Formação José Comblin, em Café do Vento (Sobrado - PB) no dia 06 de Junho próximo, trechos significativos de escritos de José Comblin de Elisabeth Schussler Fiorenza e Agostinha Vieira de Melo, seguidos de três questões a serem trabalhadas em pequenos grupos contendo relevantes elementos sobre o tema central desta XVI STPJC: Discipulado de Iguais x Patriarcalismo/Clericalismo: Contribuições de Agostinha Vieira de Melo Elisabeth Schussler Fiorenza e José Comblin.

 

 

1ª Leitura: José Comblin - “Vocação para a Liberdade” (São Paulo: Paulus, 1998)

 

“LIBERDADE DA VIDA RELIGIOSA LEIGA” (p.125 - 128)

 

“Nas cidades do Ocidente medieval nasceram novos centros de vida religiosa. Antes do século XII os mosteiros eram os centros de espiritualidade. Naturalmente continuaram sendo esses centros até os dias de hoje. No entanto, os mosteiros deixam de ter o monopólio. Também as catedrais fornecem às vezes certa formação religiosa - sobretudo os cónegos regulares que ali servem o povo. Porém, a grande novidade é a ascensão dos leigos. Já no século XII é perceptível a ascensão dos leigos! Como entender que, depois de 800 anos, o sistema eclesiástico católico não tenha aberto espaço para os leigos (que há tanto tempo demonstraram interesse em assumir papel ativo)? Na realidade foram 800 anos de incompreensão, incompatibilidade, lutas dos leigos para subir e dos clérigos para não ceder”.

 

“Nasce uma espiritualidade leiga cujas protagonistas foram essencialmente as mulheres. O sistema patriarcal do clero excluía as mulheres. Elas estiveram também excluídas da filosofia e da teologia, já que essas ciências eram reservadas aos homens, os clérigos”. 

 

“No entanto, desde aquele tempo as filhas da aristocracia recebiam uma educação semelhante à dos seus irmãos, e mesmo nas cidades mulheres aprendiam a ler e escrever em grande número - pelo menos igual ao número de homens. Algumas chegaram a aprender o latim. As outras tinham à sua disposição livros na língua popular.

 

As mulheres estavam afastadas do clericato, porém deram a formação espiritual ao povo das cidades. Os leigos eram formados por mulheres e os clérigos formavam um mundo separado - o mundo dos pobres. Deram a essas mulheres o nome de “beguinas”, sem que se saiba exatamente a origem desse nome. Havia também os “begardos” varões, porém em número muito menor.

 

Essas iniciativas desenvolveram-se sobretudo no norte da Europa, Países Baixos e Renânia. Multiplicaram-se sobretudo nos séculos XII e XIII. Depois foram vítimas de muitas reservas e até mesmo condenações de parte de Papas e Bispos. Apesar disso, conseguiram sobreviver porque receberam o apoio do povo das cidades, que precisava muito do seu tipo de espiritualidade encarnada na cidade. Segundo o Papa João XXII (em 1321), no início do século XIV totalizavam 200.000 - o que é uma cifra extraordinária, já que estavam no meio de uma população de, no máximo, 20 milhões de habitantes (provavelmente menos).

 

As “beguinas” eram moças que não queriam entrar num mosteiro, queriam dedicar a vida ao serviço de Deus e do próximo. Até os 30 anos de idade viviam na casa de uma “beguina” mais velha. Ao completar 30 anos, passavam a viver sozinhas numa casinha. Dedicavam a vida ao trabalho, ao serviço dos pobres, doentes ou anciões. Realizavam exercícios de piedade em conjunto, mas cada uma tinha sua vida independente. Formavam às vezes ruas inteiras de casinhas semelhantes. Em certas cidades como uma cidade dentro da cidade (Begijnhof, Beguinage). Ainda hoje existem essas antigas edificações e ainda há algumas “beguinas” mantendo a tradição. Foram sobretudo importantes em Flandres.

 

Em síntese, essas “beguinas” eram leigas, não faziam votos, viviam na pobreza e na piedade. Praticavam a continência, mas podiam sair da vida de “beguinas” quando quisessem a sua independência do clero na vida diária - que faz delas uma instituição da cidade, porém não do clero - torna - as suspeitas. Daí a resistência da hierarquia, fazendo com que não conseguissem prevalecer. Formaram uma espiritualidade leiga característica da Idade Média que desapareceu depois da Reforma tridentina. O mais notável foi a intensa vida espiritual e mística que essas mulheres viveram e a literatura espiritual que produziram. Escreviam em língua vulgar Flamengo, Francês e Alemão. Hadewijch de Antuérpia - uma dessas mulheres - é considerada a fundadora da língua flamenga escrita, pois as obras dela são as mais antigas obras escritas nesse idioma.   

 

Pelo valor espiritual, as obras de Hadewijch de Antuérpia, Hadewijch II, Beatriz de Nazaré, Mectildes de Magdeburgo, Margarida Porete, Lutgardes de Tongeren, Yvette de Huy, Maria de Oignies e Cristina a Admirável constituem a base da mística ulterior e, finalmente, de toda a mística ocidental. Inspiram Ruusbroec, Tauler e Eckhart. Ensinaram pelos seus escritos uma vida espiritual de contato direto com Deus. A inspiração da poesia de amor da mesma época é evidente. A sua mística inspira - se na poesia amorosa assim como os antigos se inspira no Cânticos dos Cânticos. A relação com Deus é puro amor cantado à maneira do amor humano. Pelo caminho místico pretendem ter acesso à familiaridade com Deus “Amor, amante, amado”.

 

A piedade que elas praticam e ensinam pouco tem a ver com os ensinamentos da hierarquia. Praticam tudo o que ensinam os padres, mas sua espiritualidade é própria. Não mencionam todo o sistema de crenças, dogmas, preceitos e rituais católicos. Por isso elas foram suspeitas de heresia. Margarida Porete foi condenada e queimada viva em Paris em 1302. Como Joana D’arc, era suspeita de ter contato direto com Deus sem passar pela mediação do Clero. Foi o que sempre tornou os místicos suspeitos aos olhos do clero. 

 

Alguns acham que, se elas tivessem escrito em latim, não teriam sido condenadas. Porém, escritos em língua popular, eram destinados aos leigos e podiam ensinar - lhes uma vida religiosa independente dos Sacerdotes. Elas nada negavam de todo o sistema eclesiástico. Mas o fato de não se referir a eles despertava desconfiança. Na mesma época - em grande parte sob a influência das “beguinas”, mas também com a contribuição dos mendicantes, sobretudo dos franciscanos - difundem - se na cristandade as devoções que serão a base do catolicismo popular até hoje, também do catolicismo popular latino - americano”.

 

QUESTÕES PARA REFLEXÃO

1. Como as mulheres da Idade Média, vocacionadas à missão com os pobres, enfrentaram as perseguições do Clero?

2. Que traços comuns podemos enxergar entre essas mulheres da Idade Média e as Religiosas inseridas no Meio Popular, aqui no Brasil, após os anos 1970?

 

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2ª Leitura: Elizabeth Schussler Fiorenza - “Discipulado de iguais. Uma ekklesia-logia feminista crítica da libertação” (Petrópolis: Vozes, 1995).

 

“A MAIORIA SILENCIOSA COMEÇA A FALAR” - *Este capítulo foi extraído da revista Concilium 1985/6, p.8-23; Petrópolis, Vozes. (Capítulo 18, p.275-298)

 

...Nossa liberdade é sua única saída. Nesse trem subterrâneo ou você viaja conosco ou torna-se carcereiro. Harriet Tubman jamais perdeu alguém que lhe fosse confiado. Tampouco nós o faremos.”

- De um poema intitulado “Women Behind Walls for the Women in Cook County Jail and Dwight Prison.” - [Mulheres Atrás dos Muros, para as Mulheres na Cadeia do Condado de Cook e na Prisão de Dwight. Por R. Golden e S. Collins, In “Luta é um Nome para Esperança - Escrita de Trabalhadoras, Série 3. Minneapolis: West End Press, 1982]

 

... Nós mulheres somos, não apenas a “maioria silenciosa” mas também a “maioria silenciada” na Igreja católica romana. Ao longo dos séculos e ainda hoje tem sido invocada a autoridade do apóstolo Paulo contra a pregação e ensino da mulher na Igreja: “As mulheres se calem nas assembleias, porque não lhes compete falar mas viver sujeitas...” (I Cor 14,34). E ainda: “A mulher ouça a instrução em silêncio com toda submissão. Não permito que nenhuma mulher ensine ou tenha autoridade sobre os homens; ela deve guardar silêncio. Pois primeiro foi formado Adão, depois Eva; e não foi Adão que se deixou enganar mas a mulher é que se deixou enganar e incorreu em transgressão” (I Tim 2,11-14)). (p.277)

 

Citar novamente estas surradas frases da Bíblia pode parecer a alguns leitores como chover no molhado. No entanto o silêncio teológico das mulheres na Igreja está sendo reforçado mais ainda. Ainda no último mês de maio [de 1985, considerando o ano desta publicação], durante à visita de João Paulo II à Holanda, a professora Catharina Halkes, a principal teóloga feminista católica da Europa, foi proibida de dirigir a palavra ao papa. Embora nós mulheres possamos estudar teologia, só raramente conseguimos o cargo de professora em escolas e faculdades teológicas importantes. Somos proibidas de pregar e elaborar a política eclesiástica ou doutrina da Igreja porque não somos admitidas ao episcopado ou ao colégio dos cardeais. Nenhuma teóloga feminista fala com “autoridade doutrinária” oficial, nenhuma de nós pertence a alguma comissão teológica internacional ou pontifícia, nenhuma trabalha como perita de algum bispo o sínodo episcopal, e somente muito poucas – ou talvez nenhuma – de nós somos reconhecidas como autoridades teológicas por nossos próprios méritos. (p.277/8)

 

Este proposital ou inconsciente silenciamento das mulheres na Igreja provoca nossa invisibilidade eclesial e teológica. Embora as mulheres continuam [sendo] a maioria das pessoas que ainda frequentam a Igreja e dos membros de ordens religiosas, está a Igreja representada oficialmente por homens apenas. Embora seja chamada de “nossa mãe” e esteja designada pelo nome de “ela”, a Igreja é personificada e governada por pais e irmãos apenas. Por isso, sempre que falamos de Igreja temos diante dos olhos o papa em Roma, bispos ou párocos, cardeais e monsenhores, diáconos e coroinhas, todos eles homens. Celebrações eucarísticas, conferências de bispos televisadas ou a imposição das mãos no rito de ordenação são manifestações da Igreja como um “clube de velhinhos”. Não admira que muitos cristãos acreditem que Deus é um patriarca e que o sexo masculino de Jesus Cristo é salvífico. (p.278)

 

As mulheres como Igreja são invisíveis não por acidente nem por nossa negligência mas pela lei patriarcal que nos exclui dos cargos eclesiásticos por causa do sexo (Essa discriminação na base do sexo hoje em dia é geralmente reconhecida como sexismo). A atual política e a teologia oficial da hierarquia romana ainda fazem valer a exigência neotestamentária “as mulheres se calam em todas as Igrejas” e procuram legitimar essa política com argumentos teológicos. A declaração do Vaticano contrária à ordenação de mulheres argumenta que mulher não tem uma “semelhança natural” com a masculinidade de Cristo. Esse argumento, porém, implica uma de duas coisas: ou as mulheres não podem ser batizadas porque no batismo os cristão se tornam membros do corpo (masculino) de Cristo ou nós não permanecemos mulheres porque os batizados se conformaram ao “homem perfeito”. Em ambos os casos, uma tal teologia nega a universalidade da encarnação e da salvação a fim de legitimar as estruturas patriarcais da Igreja. (p278/9)

 

A teologia feminista procura desmascarar a função opressora dessa teologia patriarcal. Analisa a experiência de opressão e discriminação da mulher na sociedade e na religião como também nossas experiências de esperança, amor e fé na luta por libertação e vida plena. Enquanto teologia crítica da libertação, a teologia feminista articula como seu problema central a maneira como a linguagem androcêntrica, as estruturas teóricas e a ciência teológica funciona para sancionar e concretizar as estruturas patriarcais na Igreja e na sociedade. Em poucas palavras minha tese é a seguinte: o silêncio e a invisibilidade das mulheres são geradas pelas estruturas patriarcais da Igreja e sustentados pela teologia androcêntrica, isto é, masculina. Já que o termo patriarcado é muitas vezes usado em lugar de sexismo e androcentrismo, torna-se necessário esclarecer primeiro a maneira como eu emprego esses termos como categorias analíticas básicas. Androcentrismo ou dualismo androcêntrico é uma cosmovisão de linguagem, mentalidade ou ideologia que legitima o patriarcado, enquanto o sexismo, racismo e classicismo são componentes estruturais dum sistema social patriarcal de dominação e exploração. (p.279)

 

... Se compreendemos a função ideológica que os textos androcêntricos, os estudos teológicos androcêntricos e a autoridade eclesiástica androcêntrica desempenham na manutenção do patriarcado social e religioso, devemos desenvolver uma “hermenêutica da suspeita” a fim de perceber o que se diz e o que não se diz acerca da realidade da mulher sob o patriarcado e nossas lutas históricas contra a opressão patriarcal. Embora a mulher seja esquecida ao se escrever história e teologia, os efeitos de nossas vidas, pensamentos e lutas são parte integrante de nossa realidade histórica e sentido que nos é ocultada. Assim como as mulheres feministas de outros ramos do saber, também as teólogas feministas procuram romper os silêncios, incoerências e mecanismos ideológicos da história e cultura androcêntrica a fim de reapropriar-se do passado patriarcal da mulher. As mulheres não apenas sofreram as aflições e a desumanização da opressão patriarcal, mas também participaram de sua transformação social e crítica profética, como também proporcionaram uma visão da Igreja como alternativa ao patriarcado. Tornando visíveis as lutas e experiências religiosas de libertação de nossas irmãs no passado, criamos condições de afirmar a validade de nossa consciência religiosa, de nossa experiência espiritual e de nossas lutas históricas. (p.291)

 

A cada geração nós mulheres temos que desafiar sempre de novo a definição patriarcal da realidade, temos por assim dizer que “reinventar a roda” sempre de novo porque o patriarcado não pode tolerar a conscientização dos oprimidos. Tem mostrado a teologia feminista que nossa opressão social e exclusão eclesial não é “culpa” da mulher, não é consequência do pecado de Eva nem é tampouco vontade de Deus ou intenção de Jesus Cristo. Ao contrário, é gerada pelo patriarcado social e eclesiástico e legitimada pela construção androcêntrica do mundo na linguagem e nos sistemas simbólicos. Na medida em que a linguagem religiosa e os sistemas simbólicos funcionam para legitimar a opressão social e a marginalidade cultural da mulher, a luta contra o silenciamento eclesiástico e a invisibilidade eclesial está no âmago da luta das mulheres por justiça, libertação e vida plena. (p. 291)

 

A teologia feminista não apenas reflete sobre essa luta, mas também procura investigar se a religião e a Igreja podem fornecer recursos e ideias nesta luta a fim dar a razão da esperança que vive dentro e no meio de nós. Procura explicar que a presença e a revelação divinas encontram-se no povo de Deus que são as mulheres. As mulheres são Igrejas, e sempre foram Igreja, chamadas e eleitas por Deus. Ao longo dos séculos e ainda hoje a Igreja patriarcal e a teologia androcêntrica silenciaram, marginalizaram e tornaram invisíveis as mulheres, e nos mantiveram privadas de poderes teológicos ou eclesiásticos por sermos mulheres. Contudo, as mulheres sempre escutaram o chamado de Deus, transmitiram a graça e presença de Deus e viveram a Igreja como comunidade de discípulos em pé de igualdade.

 

Por isso a teologia crítico-feminista da libertação procura acabar com o silenciamento patriarcal das mulheres e tornar as mulheres visíveis como agentes divinos de graça e libertação. Mostra que a necessidade de silenciar as mulheres e tornar-nos invisíveis nos sistemas linguísticos masculinos e nas estruturas teológicas masculinas já não existirá mais quando a Igreja transformar suas estruturas patriarcais de superordenação e subordinação que excluem a mulher ou só podem admitir-nos em posições marginais e subordinadas. A participação plena da mulher não apenas exige a conversão e transformação da Igreja patriarcal e seu ministério numa comunidade de discípulos iguais, mas também a articulação duma nova teologia. Já que a teologia feminista da libertação se compromete na luta de todas as mulheres contra a opressão patriarcal na Igreja e na sociedade, ela procura transformar a teologia clerical androcêntrica, isto é, de cunho masculino, que legitima a opressão patriarcal, numa teologia que promova e realce a libertação do povo de Deus cuja maior parte é constituída por mulheres. Matilda Joslyn Gage formulou, com competência, esta tarefa da teologia feminista já há quase um século: “A luta mais importante na história da Igreja é a das mulheres em prol da liberdade e do pensamento, e do direito de expor esse pensamento ao mundo” (M. Joslyn Gage, “Woman, Church and State”, (primeira publ. em 1893), Persephone Press, Watertown,1980). (Schüssler, 1995, p.292).

 

QUESTÕES PARA REFLEXÃO

1. De que estratégias usou o clero para excluir as mulheres das decisões da comunidade eclesial?

2. Como as mulheres, ao longo de séculos e atualmente, conseguem enfrentar seu apagamento/silenciamento das decisões eclesiais?

 

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3ª Leitura: Agostinha Vieira de Melo - “DE ÁGUAS, VENTO, PALAVRAS E PAPEL. Poemas da Ir. Agostinha” - (Coletânea organizada por Maria Luiza Martins Alessio e Marcelo Barros)

 

Poema 1 - SEIVA (p.9)

Corpo pessoal, nosso corpo de cada dia,

Corpo social, nossas comunidades humanas e políticas,

Corpo cósmico – tudo o que tem Vida!

Por eles passa a seiva

Que nutre as relações:

Eu-tu-elas-eles-nós,

Deus conosco

Parceiro de mistérios de todos os tamanhos,

Ecumênica bússola

Aberta à liturgia das misturas da vida.

Espiritualidade acolá, aqui e ali

Doce como sapoti hoje e amanhã

Aqui no CEBI.

 

Poema 2 - O REINO DE DEUS (p.27)

O reino de Deus

Não precisa de rei

Pede artesãos e artesãs

Para tecer uma grande rede,

Ninho de liberdade

Na variedade-igualdade

E que daí se levantam com gosto

Para a grande obra comum

Onde a Fonte da Vida

Chega primeiro

Como parceiro, parceira!

O reino de Deus

Não precisa de rei

Pede artesãos e artesãs

Para tecer uma grande rede,

Arrastão de ecumênica variedade

Que nem arrasta, nem arranha,

Nem abafa a liberdade

E que daí se levantam com gosto

Para a grande obra comum

Onde e Fonte da Vida

Chega primeiro

Como parceiro, parceira!

 

Poema 3 - A EX-ENCURVADA FILHA DE ABRAÃO (p.46-48)

Ela não era assim!

Assim encurvada, corcunda.

Antes disso

seu olhar abrangia

todas as direções

e com seu olhar, seu corpo,

seu viver, seu fazer, seu andar, seu sonhar...

Quem sabe o que a tornou assim

dobrada, tão deformada?

Diziam que não levantava sua cabeça.

E aí... só via os chão e o pó de seus pés.

Quem pode diagnosticar com precisão

o que ocorre por dentro de dezoito anos

de rebaixamento? De múltiplas dependências?

Quem sabe se olhada

de cima para baixo

por especialistas em economia,

política, antropologia, psicologia e teologia

a encurvada ouviria pareceres:

“Alienada! Não vê a realidade”.

Já o pessoal da rua a chamavam de corcundinha.

... O abaixamento dessa corcudinha

doía, doía e bradava por um esticamento milagroso.

...E ele veio.

O mistério amoroso que acolhe o beijo da Justiça e da Paz no coração

olhou-a,

chamou-a, tocou-a,

desencurvou-a.

Tocou-a com suas mãos e no carinho,

(cuidado samaritano tem forças taumaturgas.)

Agora ereta ela inteirinha

me, falou... só louvou

que é fala de amante!

Isso passou-se numa casa de oração e de educação!

Muitos, dessa casa de oração e de educação

(a começar do chefão)

iniciaram um coro de condenação:

“Pecado de profanação

não guardar a santidade da lei

e a retidão da instituição!

(Ah, que tamanho e poder têm os sábados!)

O Mistério amoroso transbordou de reta indignação.

A mulher louvou

O Mistério amoroso, bem humanamente

xingou: “Hipócritas!”

Lembrou-lhes eles desamarravam e soltavam

seus bois, seus burros

para que bebessem água.

Não haveria de desamarrar a corcundinha?

E chamou-a filha de Abraão!

(cidadã do povo de Deus!)

Não foi dado o nome nem o número

dos amarrados pela lei e instituição.

Assim desmascarados

ficaram mortos de vergonha!

E o que fizeram de seu envergonhamento não se sabe.

(Parece que a multidão

pulava, cantava e

se alegrava com a viração!)

A ex-corcundinha ainda hoje anda

por nossas casas, ruas, praças, favelas e templos

na multidão das nossas realidades.

E espera por nossas buscas

e pela mudança de nossas osteopatias

em utopias palpáveis

e não-encurvadas... (abril/2008)

 

QUESTÕES PARA REFLEXÃO

1. O que aprendemos da poesia profética de Agostinha?

2. Que trechos das poesias de Agostinha destacaríamos com mais força?

 

 

Contribuição do Grupo Kairós

João Pessoa/ Maio de 2026

 

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