Pe Waldemir Santana
A escravidão foi o maior crime que se cometeu contra a humanidade. Só os obtusos é que não reconhecem essa monstruosidade que foi perpetrada. O sistema escravocrata encontra sua adequada e real explicação na ideologia sobre a qual outras determinações econômico-política, psicológica, simbólica e físico desempenharam e desempenham ainda hoje um papel relevante, mas que não constituem a sua essência. A escravidão é uma ideologia de dominação. Portanto é um conjunto estruturado de ideias cuja função prática é encobrir e justificar a exploração e dominação de um povo sobre outro.
A luta contra escravidão e suas novas formas de se firmar nesse mundo, é uma batalha cotidiana, pois, as forças que condicionam as estruturas escravocratas de ontem e de hoje estão sempre em ação. Ao fazer memória desse processo de escravidão, ficamos estarrecidos com a crueldade como ele foi praticado. No século XVIII e no início do século XIX, era impensável para a grande maioria das pessoas que a escravidão viesse a ter seu termo. A escravidão era a viga de sustentação que a economia precisava para continuar lucrando à custa de pessoas escravizadas. Essa escravidão continua hoje no modo de produção capitalista, pois, exclui dos meios de vida a maioria da população constituída de pessoas negras e pardas.
Durante três séculos e meio, o Atlântico tornou-se o grande cemitério de escravos. Durante a travessia nas condições mais horrendas que a cifra de mortalidade mostrava a sua face mais cruel. O escravo não era um ser humano, mas uma peça a ser consumida até as suas últimas forças na máquina de moer gente, pois, ele representava um investimento, uma mercadoria valiosa aos olhos dos traficantes. Como era uma mercadoria, cada óbito tinha que ser registrado no livro dos mortos pelos capitães dos navios. De cada 100 pessoas escravizadas, apenas 40 sobreviveriam a grande tribulação dessa infame jornada. 60% perderiam a vida ao longo da jornada nos navios negreiros. O suicídio também estava presente ao longo dessa travessia. Escravos tomados pelo desespero, aproveitando do descuido de um dos guardas, jogavam-se ao mar como uma forma de libertação desse atroz sofrimento. Ao longo de 350 anos, entre 23 e 24 milhões de seres humanos foram arrancados de suas famílias e comunidades. Hoje, estima-se que 12,5 milhões de cativos foram despachados nas masmorras desses navios, mas só 10,7 milhões chegariam aos portos do continente americano. O total de mortos na travessia do oceano seria de 1,8 milhões de pessoas.
A história da escravidão está marcada pela dor e por um sofrimento pungente. Por mais que se escreva livros sobre o holocausto do povo escravizado pelas forças coloniais, nenhum livro conseguirá traduzir e expressar a dor que até hoje esse povo sente juntamente com seus descendentes.
A escravidão é o crime mais grave que já se cometeu contra a humanidade, foi o que decidiu a ONU em uma resolução recente do dia 23 de março de 2026. 123 países votaram a favor, somente três votaram contra os dois países genocidários EUA e Israel, juntamente com a Argentina. É sabido por todos que a Argentina teve um passado escravocrata, mas entrou por um caminho político de apagamento, de negação desse seu passado histórico. Mas, temos que levar em conta que seu atual mandatário é um sabujo em relação ao governo dos EUA, que atualmente é presidido pelo obtuso supremacista Donald Trump. O passado dos Estados Unidos é um passado escravocrata tão intenso quanto o Brasil, além de um processo de segregação bastante violento e legalizado. Por que Israel votou contra essa resolução? Israel tem um passado ligado a uma reparação histórica. Em 1952, Israel assinou um acordo de reparação histórica com a Alemanha. Todo o recurso recebido foi empregado na infra-estrutura de Estado sem a qual Israel não teria a estrutura que tem hoje. Hoje Israel comete contra o povo palestino tudo o que os nazistas fizeram com eles, é um país genocida. É importante frisar que 52 países se abstiveram desta votação, também não reconheceram a escravidão como o crime mais grave da humanidade. A maioria dos países que se abstiveram eram da Europa que participaram efetivamente do processo de colonização. Qual a importância dessa resolução? Essa resolução abre um caminho jurídico para a possibilidade para fortalecer a luta por reparações históricas que buscam esses países. Essas nações que n ão tiveram somente seu grupo humano saqueado, escravizado, mas que tiveram suas próprias riquezas sequestradas, roubadas pelo processo de colonização. Esta resolução é um lastro jurídico importante na luta por reparação e pela memória histórica. O país africano, Gana teve o mérito de apresentar essa resolução.
O Papa Leão XIV, pediu perdão pelo envolvimento da Igreja na escravidão. O Papa João Paulo II, por ocasião do novo milênio também pediu perdão pelos pecados cometidos pelos membros da Igreja. Ele só não elencou quais pecados. O que significa o arrependimento por parte de um sujeito coletivo como a Igreja? Essa atitude implica coragem evangélica, e portanto, profética não só para reconhecer os erros do passado, mas também para se converter. Não reconhecer erros do passado da instituição pode custar caro ao que diz respeito ao processo de conversão. Com espírito de humildade próprio do evangelho, reconhece-se erros passados para ganhar em credibilidade no presente.
Garimpando a história percebemos muitas contradições no processo de evangelização. A atitude dos jesuítas em relação ao índio e muito diferente em relação ao negro. Os jesuítas procuram defender o índio, para que esse não fosse escravizado pelo colono branco. Essa mesma postura faltará em relação ao negro. A aliança que foi feita com o senhor de escravo para levar a religião católica ao negro é de um cinismo aterrador. O comprometimento com o sistema escravista, usará o braço escravo nas propriedades de ordens religiosas, nos serviços domésticos dos vigários e bispos. A posição da Igreja no Brasil ficará marcada pelo paradoxo de que a catequese do negro é exercida pelo senhor de escravo. Dessa forma a catequese beneficia o senhor e penaliza o escravo.
O Papa fez um pedido de perdão que já deveria ter sido feito a muito tempo. Mas nunca é tarde para se retratar. O Papa americano rompendo esse tabu de evitar implicar a Igreja nessa tragédia humana que foi a escravidão. Porque nada foi feito antes pela Igreja para evitar esse holocausto negro. No passado nem Bula foi revogada que dava permissão aos portugueses para reduzir seres humanos a uma peça a triturada na máquina escravista. O Papa Leão XIV, com muita lucidez profética denunciou o papel da Santa Sé e as bulas papais que autorizavam e promoviam a escravidão, assumiu a responsabilidade da Igreja nesse maior crime que aconteceu na história da humanidade. Essa ferida ainda estava aberta na memória não só do povo cristão, mas de toda humanidade.
Esse gesto simbólico e histórico do Papa entrará para a história da Igreja e da humanidade. Mas fica a grande pergunta: será que só pedir perdão basta?
Pe Waldemir Santana
Arquidiocese da Paraíba

