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por Eduardo Hoornaert

O evangelho não é uma evidência.

 

Se hoje vale a pena rememorar a vida de Helder Câmara, é principalmente no sentido de nos mostrar que a descoberta do evangelho, por parte de um católico – seja ele leigo, sacerdote ou bispo – não é uma evidência. Pelo contrário. Após sua ordenação sacerdotal em 1931, Helder demora 24 anos para vislumbrar o evangelho, tão poderoso se afigura o encobrimento da mensagem fundamental de Jesus de Nazaré por meio de estruturas organizatórias e mentais a cobri-la e a quase impedir a formulação da simples pergunta: ‘sou cristão?’. ‘Claro que sou cristão, pois fui batizado e crismado e me casei na igreja’, eis a resposta espontânea. O sacerdote acrescenta: ‘ fui ordenado padre’, e o bispo ‘fui consagrado bispo’. É exatamente esse tipo de resposta que impede colocar certas perguntas com clareza. A ilusão católica estende seu pesado manto sobre séculos e mais séculos de mentalidade cristã. No caso dos católicos, ela constitui o principal obstáculo ao evangelho.

Para Helder Câmara, bispo auxiliar do Rio de Janeiro, nos primeiros meses do ano 1955, a coisa não é diferente. Nesses meses, ele se empenha numa tarefa que exige todas as suas energias, todo o seu tempo: preparar o 36º Congresso Eucarístico Internacional a ser celebrado entre 17 e 24 de julho.

Não se discute a importância do momento que há de revelar, pela primeira vez, o Brasil ao ‘mundo’. O Cardeal Leme ordena que dois de seus bispos auxiliares, Helder Câmara e José Távora, se empenhem inteiramente na preparação do megaevento. Helder trabalha mais de doze horas por dia, não se alimenta direito. Pois os problemas aparecem: há de se apressar o aterramento na Praia do Flamengo, onde se deve montar o palanque para as autoridades eclesiásticas. Como o governo demora em terminar as obras, alegando falta de recursos, os bispos montam um esquema de arrecadação de fundos junto a famílias católicas abastadas. Há de se providenciar fileiras e mais fileiras de bancos de madeira (se alinhadas de modo longitudinal, essas madeiras cobririam 96 km.), há de se preparar o cortejo de Filhas de Maria, de Congregados Marianos, (ao lado da Eucaristia, o Congresso homenageia Nossa Senhora Aparecida a ser trazida de São Paulo pelo Cardeal Mota),.dos meninos e das meninas da Cruzada Eucarística, dos leigos e leigas afiliados(as) a diversos movimentos da Ação Católica, do clero e do episcopado a desfilar, nos dias marcados, pela Avenida Rio Branco, rumo à Praia do Flamengo. Há de se embelezar as favelas que formarão o pano de fundo da visão que os prelados internacionais convidados terão, a partir do palanque no Aterro do Flamengo. Para tanto se organizam equipes a distribuir de graça latas de tinta a pintar as casinhas. Há de se acompanhar os 109 Congressos Eucarísticos paroquiais organizados pela Arquidiocese do Rio e por diversas dioceses Brasil afora. O trabalho é tão exaustivo que o colega bispo auxiliar José Távora não aguenta a pressão e é hospitalizado com problemas cardíacos. Mas as equipes de Dom Helder, principalmente aquelas que são formadas por mulheres, aguentam o rojão e fazem um trabalho maravilhoso. Finalmente, em setembro, o Congresso Eucarístico Internacional é um enorme sucesso. Nos dias marcados, a Avenida Rio Branco é uma beleza só, o Aterro na Praia do Flamengo reluz no brilho dos uniformes, das bandeirinhas, dos cortejos, dos cânticos, das adorações e das genuflexões. O Brasil nunca foi tão católico como em 1955. No final, todo mundo concorda: grande parte do sucesso daquele Congresso provém do gênio organizador e do empenho incansável de Helder Câmara.

 

O Cardeal Gerlier entra em cena.

 

De repente, no final do Congresso, um cardeal francês entra em cena. Prestes a tomar o avião para volta à terra natal, ele se encontra com Dom Helder e lhe diz, com outras palavras, que o palanque é vaidade e que as favelas pintadas – em frente ao palanque dos bispos - são um engodo. Como diz o Qohelet (o ‘Eclesiástico) bíblico:

 

Vaidade das vaidades

Tudo é vaidade (v.2)

 

Uma geração vem

Uma geração vai.

Tudo fica no mesmo (v. 4)

 

O que foi será

O que se fez se faz de novo.

Nada de novo

Sob o sol (v. 9)

 

Tudo se esquece

Tudo se vai (v. 11).

 

Os biógrafos Piletti e Praxedes escrevem que, ‘poucos dias antes de retornar a seu país, o Cardeal Gerlier (de Lyon, na França) fez questão de conversar com Dom Helder. Depois de elogiá-lo pelo êxito do Congresso, o Cardeal resolveu lhe lançar um apelo: ‘Permita-me falar-lhe como um irmão, um irmão no batismo, um irmão no sacerdócio, um irmão no episcopado, um irmão em Cristo. Você não acha que é irritante todo esse fausto religioso em uma cidade rodeada de favelas? Eu tenho certa prática em organização e por ter participado desse Congresso devo dizer-lhe que você tem um talento excepcional de organizador. Quero que faça uma reflexão: por que, querido irmão Dom Helder, não coloca todo esse talento de organizador que o Senhor lhe deu ao serviço dos pobres? Você deve saber que o Rio de Janeiro é uma das cidades mais belas do mundo, mas é também uma das mais espantosas, porque todas essas favelas, nesse quadro de beleza, são um insulto ao criador’E, segundo os mesmos historiadores, Helder teria dito na hora: ’Este é um momento de virada em minha vida. Todo o dom que o Senhor confiou, colocarei a serviço dos pobres’ (Piletti, p. 233).

O jornalista francês José de Broucker apresenta outra versão do momento: ‘Foi num momento de glória e prestígio que Dom Helder ouviu do Cardeal Gerlier, presente àquela solenidade, as seguintes palavras: ‘Eu tenho certa prática em organização e por ter participado desse Congresso devo dizer-lhe que você tem um talento excepcional de organizador. Por que o querido irmão não coloca todo esse seu talento a serviço dos pobres?’ (de Broucker, J., ‘Les Conversions d’ un Évêque’, Paris, Seuil, 1977). Sempre segundo de Broucker, Helder teria lhe dito, ao comentar o ocorrido: Eu beijei as mãos do cardeal e lhe disse: ‘Vou dedicar-me aos pobres! Não estou certo de que tenha um talento particular de organizador, mas vou oferecer tudo o que o Senhor me deu ao serviço dos pobres’.

É uma ‘Umwertung aller Werte’, como diria Nietzsche, uma ‘reviravolta de todos os valores’. É verdade que a ‘Regra de vida’, concebida por Helder em tempos de seminário (1924-1931), já contém sementes evangélicas, mas elas não encontram terra propícia ao longo dos 24 primeiros anos de seu sacerdócio, pois são abafadas por outros ‘valores’. Mas em 1955, um redemoinho toma conta da alma do bispo Helder, a varrer certezas passadas e fazer emergir um futuro diferente. O evangelho irrompe com a força de um furacão a varrer ilusões e mostrar novos horizontes. Helder nunca mais será o mesmo. A partir de julho 1955, ele não tem mais vontade de vestir a camisa verde dos integralistas, nem a estola sacerdotal ou a mitra episcopal. Basta-lhe a batina surrada de cada dia, que o aproxima dos sofridos 80 % da população brasileira silenciada e esquecida.

Os momentos com o Cardeal Gerlier constituem, para Helder Câmara, um saudável encontro com o que há de melhor na igreja da França. Pierre Gerlier (1880-1965) é uma vocação sacerdotal tardia, arcebispo de Lião entre 1937 e 1965. Ele traz consigo algumas iniciativas evangélicas em curso na França, inspiradas nas ideias de Henri de Lubac (1896-1991: humanismo com Deus), Paul Couturier (1881-1953: ecumenismo), Louis Joseph Lebret (1897-1966: economia e humanismo) e Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955: integração entre teologia e ciência). Iniciativas como o incipiente ‘mosteiro’ luterano em Taizé, a fraternidade sacerdotal do Prado, com Monsenhor Ancel, o movimento dos Padres Operários, revolução na relação entre sacerdócio e mundo do trabalho. Formado segundo o modelo tridentino, Gerlier é um homem capaz de acolher as sementes do Vaticano II (1962-1965) e o espírito do Papa João XXIII (1958-1963).

Esvanece, na mente de Helder, a interminável procissão ao longo da Avenida Rio Branco, as bandeiras e bandeirinhas, o longo cortejo de cardeais, arcebispos e bispos, padres, religiosos e religiosas. Vaidade das vaidades. Onde está o Santíssimo Sacramento, na hóstia consagrada ou nos operários que montam e desmontam os palanques, instalam e desinstalam os serviços de luz e ampliação de som, nas moças que servem cafezinhos aos bispos e agora voltam a ser catequistas nas paróquias, nas meninas dos colégios tão impecavelmente alinhadas nas procissões, nas crianças da Cruzada Eucarística, bandeirinhas nas mãos? Onde está o Santíssimo Sacramento?

 

Em que consiste exatamente a irrupção do evangelho?

 

A irrupção do evangelho se manifesta de modo inequívoca nas chamadas ‘Bem-Aventuranças’ de Jesus de Nazaré, tais quais são registradas no capítulo 6 do Evangelho de Lucas, versículos 20 a 21. Peço licença para incluir aqui algumas palavras acerca da tradução do termo grego ‘makarios’ (feliz) que se encontra no dito Evangelho. Pois tudo depende de uma tradução justificada desse termo. Sabemos que Jesus falava o aramaico e que, portanto, ‘makarios’ já é uma tradução. Afinal, o que Jesus quis dizer quando chamou os pobres de ‘felizes’?

Considerando o contexto de sua fala, há razões para traduzir o referido adjetivo por ‘ditoso’, ‘de boa sorte’. ‘Ditoso’ por corresponder a um ‘ditado’ divino, ‘de boa sorte’ por constituir aquela parte da humanidade que é capaz de captar os intentos divinos. Isso significa que os ricos mal captam os intentos divinos. A fala de Jesus partiria, pois, da constatação que os planos divinos não estão sendo realizados nas sociedades dos homens, classicamente caracterizadas pelo predomínio dos poderosos e ricos sobre os fracos e pobres. Aliás, essa é uma ideia que perpassa toda a Bíblia. O Deus da Bíblia subverte o ditame tacitamente aceito da dominação do fraco pelo mais forte, do pobre pelo rico, da viúva necessitada pelo juiz prepotente. É um Deus subversivo. Dentro dessa lógica, o adjetivo grego ‘makarios’, tal qual figura no Evangelho de Lucas, ganha um sentido político, constitui um apelo para que os pobres não só compreendam sua importância na história da humanidade, mas tenham – acima disso - a segurança de estarem alinhados com o plano divino. Uma compreensão que os motiva a passar a agir em prol de sua libertação.

Dessa compreensão resulta uma tradução do adjetivo ‘makarios’ por ‘em marcha!’, ‘avante!’, ‘mãos à obra!’, ‘não fiquem parados!’, ‘vocês verão chegar o reino de Deus!’, que hoje se pode encontrar em algumas traduções de Lc 6, 20-21, como, por exemplo, no texto de uma recente tradução francesa da Bíblia, a Bible da Editora Bayard, Paris, 2001:

 

Vocês têm sorte, vocês pobres!

O reino de Deus é de vocês.

Vocês têm sorte, vocês que têm fome!

Vocês serão saciados.

Vocês têm sorte, vocês que choram!

Pois vocês vão rir (Lc 6, 20-21).

 

Ou, na mesma linha:

 

Em marcha, vocês pobres etc.

 

‘Não se conformem com sua pobreza, sua fome e seu abatimento, superem a situação em que se encontram, pois podem ter a certeza de contar com o apoio de Deus (‘o reino de Deus é de vocês’).

As ‘Bem-Aventuranças’ se destacam diante de todas as formulações elaboradas em prol da boa convivência entre pessoas e sociedades, desde o Código de Hamurabi (século VII aC) até a recente Declaração dos Direitos Humanos (1948), no sentido que não só falam da igualdade, mas da precedência dos pobres e desfalecidos. Trata-se de uma declaração absolutamente inovadora e inaudita, por parte de um camponês da Galileia chamado Jesus de Nazaré.

É nesse sentido que o teólogo José Comblin, numa Conferência pronunciada no Chile em 2005, fala em ‘bem-aventuranças políticas de Jesus’, e comenta: ‘Essas bem-aventuranças foram explicadas como palavras de consolo: ‘Consolem-se os pobres, porque o reino de Deus pertence a vocês... no céu. Bem-aventurados os que têm fome, porque se fartarão... no céu’. Seria como uma recompensa ou uma consolação pela paciência que os pobres teriam tido durante sua vida terrestre. Isso se repetiu durante séculos, até que os trabalhadores e os pobres do mundo se rebelaram e perderam a confiança nos pregadores. No entanto, Jesus queria dizer: ‘Pobres, levantem-se! Em marcha! Vocês verão chegar o reino de Deus! Que se levantem os que estão com fome! Em marcha! Que conquistem a comida! Que se levantem os que choram! Em marcha! Chegou o momento de rir’. Com essas palavras, Jesus quis encorajar os pobres, mobilizar suas forças, dar-lhes coragem diante da falta de esperança. Ele não queria aconselhar os pobres a continuar esperando que uma mudança viesse do céu sem que eles fizessem nada, como se a pobreza fosse em si uma virtude que Deus recompensaria! Essa foi a interpretação das elites sociais, dos privilegiados. Muitas vezes, uma parcela expressiva do clero simplesmente repetiu a interpretação dos poderosos, segundo a qual se justificava a passividade dos pobres por razões religiosas. Esse foi o grande escândalo da história. A mensagem que deveria elevar os espíritos dos pobres foi desviada e serviu para mantê-los passivos. Eles foram ensinados a se contentar com sua pobreza, em vez de convocá-los a lutar contra essa pobreza. Foi a grande traição dos clérigos! Infelizmente, essa traição ainda continua em muitos lugares que ainda cultivam o cristianismo antigo’. (Texto de José Comblin, mimeografado e publicado pelo movimento ‘También somos Iglesia’, Chile, maio 2007. Veja Internet)

 

Fica claro que Helder Câmara, em 1955, não se expressa como os teólogos da libertação hoje. Afinal, temos de esperar os anos 1960 para enontrar teólogos como Karl Rahner, que se distancia aos poucos de formulações provenientes de um cristianismo privatizado e aponta a dimensão política do evangelho. Temos de esperar a ‘Teologia Política’ do alemão João Batista Metz, da segunda parte dos anos 1960, assim como a ‘Teologia da Libertação’ do peruano Gustavo Gutiérreza dos inícios dos anos 1970. Em 1955, essas novas teologias ainda não existem. Elas nem aparecem no Concílio Vaticano II de 1962-1965. Como é de se esperar, o bispo auxiliar do Rio de Janeiro entende o Sermão da Montanha num sentido assistencialista, dentro do que, na época, se entende por ‘caridade’. As iniciativas que ele cria após o evento de 1955 o demonstram. O fato básico é que os pobres passam a constituir o centro das atenções de Helder Câmara. Essa é uma mudança radical, cujos desdobramentos se verificam ao longo dos anos.

 

A favela no centro das atenções.

 

Nos últimos meses de 1955, Helder Câmara volta sua atenção às 150 favelas que configuram o panorama da cidade de Rio de Janeiro. Ele desvia seu olhar, não só do Palácio Catete, onde despacha o Presidente da República, mas também – o que é mais relevante – do o Palácio São Joaquim, onde funciona a ‘cúria’ do arcebispo. A ‘cidade maravilhosa’ lhe revela sua verdadeira fisionomia, feita de fome, carência e muito sofrimento. Helder entende que as favelas hão de ser ‘urbanizadas’ e ‘humanizadas’, transformadas em lugares onde faz bem viver. Ele descarta planos de urbanização que consistam em deslocar os pobres para ‘conjuntos habitacionais’ em áreas distantes da Zona Norte, longe da Zona Sul burguesa (planos ulteriormente realizados pelo Governador Carlos Lacerda (1960-1965), pois entende que as domésticas e os operários manuais necessitam continuar morando perto de seus lugares de trabalho.

Imediatamente, Helder pede a colaboradoras e colaboradores das lidas na preparação do Congresso, que não abandonem seus postos, mas se empenhem doravante numa nova tarefa, não menos importante: a urbanização e humanização das favelas. Já nos primeiros dias após a conclusão do Congresso, toneladas de madeira cortada e planeada, que serviam de assentos durante o Congresso, são distribuídas nas favelas. E no dia 29 de outubro 1955, apenas 50 dias após a conclusão do Congresso, se cria a Cruzada São Sebastião, um plano ambicioso no sentido de urbanizar as favelas do Rio de Janeiro no curto prazo de dez anos, de modo que a cidade possa comemorar, em 1966, já plenamente urbanizada, o seu quarto centenário.

Esse plano é secundado, desde 1959, pelo ‘Banco da Providência’, uma superintendência filantrópica para manter vivos trabalhos assistenciais espalhados pela cidade e socorrer pessoas em situação de risco. Mais adiante, essa iniciativa é completada pela ‘Feira da Providência’, na intenção de abastecer com recursos angariados as atividades assistenciais apoiadas pelo Banco.

Em seu livro ‘Dom Hélder, misticismo e santidade’ (Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2002), o jornalista Marcos de Castro reproduz o depoimento de Marina Bandeira, colaboradora do bispo auxiliar que acompanha de perto a Cruzada São Sebastião desde os inícios. Ela mostra que Helder enxerga desde os inícios a raiz do problema da habitação no Rio de Janeiro e percebe o alcance nacional da questão. Ele enxerga a relação entre o Nordeste e a favelização no Rio e é um dos primeiros, em nível nacional, a chamar a atenção dos políticos para a questão da pobreza no Nordeste. Consegue sensibilizar, nos anos 1958-1060, o próprio Presidente da República, Juscelino Kubitschek, e planeja com ele, já em 1958, em Campina Grande na Paraíba, um Encontro entre economistas e bispos, que está na origem da ‘Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste’ (Sudene), liderada pelo economista Celso Furtado (p.291).

Efetivamente, em 1963, portanto apenas sete anos depois de iniciada a Cruzada São Sebastião, quando ela alcança o resultado não desprezível da construção e entrega de 956 apartamentos, na Praia do Pinto e em Morro Azul, se constata que o déficit habitacional da cidade, entre 1956 e 1963, em vez de diminuir, duplicou. Colaboradoras e colaboradores do bispo Helder, como Marina Bandeira, constatam que o problema habitacional, tal qual se apresenta em grandes cidades como Rio de Janeiro, expõe uma questão que afeta o Brasil como um todo: a migração de trabalhadores e trabalhadoras de zonas rurais do Brasil inteiro para grandes cidades, na expectativa de encontrar trabalho e moradia. Trata-se de um problema nacional. Rio de Janeiro oferece trabalho, sim, mas não moradia nem salário digno. Os bairros pobres se entopem de gente. O bispo Helder percebe que, para ter sucesso nessa nova empreitada, não basta talento de organizador (realçado por Gerlier). Ele terá de recorrer a sua habilidade congênita (eu quase digo ‘cearense’) de saber ‘dançar na corda bamba’, driblar, negociar, contornar, lidar com autoridades nem sempre dispostas a partir com ele na aventura evangélica. Terá de ser tático, aproveitar do momento, da intuição do momento, intuir possibilidades concretas e aberturas inesperadas. Mas nem todos entendem os posicionamentos do bispo desse modo. Muitos ficam desorientados, quando não mal-intencionados no sentido de apresentar Helder como um farsante, um enganador, uma figura ambígua que não merece confiança.

 

O enigma Helder.

 

Muitos não compreendem a reviravolta de 1955, nada sabem da irrupção do evangelho na vida do bispo auxiliar do Rio de Janeiro. Ele se torna enigmático. Para uns é ‘popularesco’, populista, exibicionista, hipócrita. Para outros um profeta, um santo. Quem é esse ‘bispinho’ que se sente tão à vontade em meio a políticos e autoridades, que aborda com tanta fluência assuntos do momento, que se ‘intromete’ em tudo? Como entender uma personalidade ao mesmo tempo tão midiática e tão modesta? Será um intruso, um farsante? Pois Helder, ao mesmo tempo que se ‘intromete’, impressiona por sua humildade e se compara com o ‘jumentinho de Jesus’ (alusão à entrada triunfal de Jesus em Jerusalém). Sua retórica, ao mesmo tempo que fascina, desorienta. Enfim, a maioria das pessoas não encontra a chave de acesso ao segredo de Helder que, em última análise, está no Sermão da Montanha.

Mesmo pessoas insuspeitas como José De Broucker, editor da prestigiada revista francesa ‘Informations Catholiques’, fascinado pela figura de Helder Câmara, tem suas dúvidas. Nem se fala da ‘grande imprensa’ do Rio de Janeiro (o ‘Jornal do Brasil’ e o ‘O Globo’), onde seus detratores de plantão, como Gustavo Corção, Nelson Rodrigues e Plínio Corrêa de Oliveira, encontram amplo espaço. Eles fustigam Helder sem cessar e exploram, nos mais diversos modos, a aparente duplicidade entre diplomacia e humildade que caracteriza os comportamentos do bispo, tratando-o incansavelmente de ‘demagogo’, ‘farsante’, ‘hipócrita’, ‘enganador das massas ignorantes’, ‘falsário’, ‘oportunista’. Helder se torna opaco para grande parte da ‘inteligência’ brasileira, que faz questão de se declarar ‘cristã’, mas na realidade vive uma ilusão do evangelho, um simulacro da mensagem de Jesus de Nazaré. O exemplo mais claro da confusão (real ou planejada) se encontra nas Crônicas do teatrólogo pernambucano Nelson Rodrigues, radicado no Rio de Janeiro, diariamente publicadas no jornal O Globo (muitas delas escritas na própria sala de edição do jornal) e que a Companhia das Letras editou em 1993 sob o título ‘o Óbvio ululante’. Para quem lê hoje essas Crônicas de 1968, a ignorância e petulância do escritor se evidencia, assim como a perversidade da redação de um jornal que lança mão de Crônicas para discriminar e ridicularizar as expressões de um catolicismo que tem a coragem de se insurgir contra a ditadura reinante no país, com expressões como Alceu Amoroso Lima, Helder Câmara e Hélio Pelegrino. Nas referidas Crônicas, Nelson cita Helder 25 vezes, invariavelmente com comentários ‘óbvios’ e ‘ululantes’. A impressão que se tem é que Helder ronda a cabeça de Nelson que nem uma mosca incômoda. Como esse ‘bispinho’ tem tanto sucesso e o ofusca, ele, celebrado cronista?

Nelson não consegue se livrar da imagem de Helder, que o persegue diariamente. Ele repete até a exaustão: ‘Helder é puro espetáculo, não tem nenhum conteúdo, não segue a razão’, ‘Dom Helder não se incomoda com a razão. Ele é capaz de se ajoelhar aos pés de Barrabás e de cuspir na cara de Jesus’ (13/3/68, p. 189), ‘Dom Helder é um ator que galopa, arquejante, atrás de uma plateia’ (p. 221), ‘Dom Helder trocaria o paraíso por um único e escasso espetador. Nasceu no país certo, pois o Brasil é o país do gesto, da inflexão, da ênfase, do grande efeito plástico, a melhor plateia do mundo. Nas outras terras, o êxito passa rápido. Aqui permanece’ (p. 229). Para Nelson, a única saída consiste em apresentar Helder como um puro ‘ator’, um homem que daria sua alma ao demônio, só para ocupar o palco. ‘Dom Helder é pura vaidade’ (p. 231), ‘ele é o ator’ (p. 231).

Em 1971, finalmente, o governo militar percebe que não adianta combater Helder Câmara. É preciso torná-lo invisível e inaudível. As autoridades emitem uma ordem, endereçada a todos os meios de comunicação em massa, proibindo categoricamente que se mencione o nome Helder Câmara ou que ele apareça em tela. Essa proibição, de certo modo, funciona até hoje. Uma medida que, de certo modo, tem seus limites, pois o mundo de Nelson Rodrigues e de outros jornalistas é o mundo dos gabinetes de redação, não da rua. Nelson esgrime como se o Brasil todo esgrimisse com ele. Eis sua ilusão.

 

Problemas com a Igreja.

 

Como não pode deixar de ser, a partir de 1955 o bispo auxiliar Helder Câmara se destaca entre seus pares. Para muitos se torna enigmático.

Em 1961, por exemplo, quando o Vaticano – em preparação ao Concílio Vaticano II - envia a todos os bispos do mundo um questionário acerca dos grandes problemas que assolam o mundo e a igreja, a maioria dos bispos afirma que ‘comunismo, ateísmo, secularismo, protestantismo e espiritismo’ constituem os grandes problemas do mundo. Helder se destaca. Para ele, o grande problema do mundo consiste no fato que dois terços da humanidade vivem na pobreza e enfrenta problemas endêmicos de fome, doença e habitação. Esse tipo de análise faz de Helder Câmara um dos pouquíssimos homens do Concílio que têm ‘visão’, como escreve o teólogo francês Yves Congar (1904-1995) em sua obra póstuma ‘Mon Journal du Concile’ (Paris, Cerf, 2004).

Ao participar do Concílio Vaticano II (1962-1965), Helder tem o cuidado de fazer circular, entre suas amigas colaboradores do Rio de Janeiro, as famosas Cartas Circulares, redigidas em grande parte durante as Vigílias noturnas (publicadas pela Editora do Estado de Pernambuco). A primeira Carta se inicia significativamente com as seguintes palavras: ‘O Concílio vai ser dificílimo’. Ele percebe que fica difícil pensar no mundo dos pobres em meio às pompas romanas. Ele vê o Vaticano como uma corte papal, a mais impressionante corte do mundo ocidental. Com suas cortesias, diplomacias e hipocrisias. Pela imensa Basílica de São Pedro galopa o Imperador Constantino (do século IV), em cima de um cavalo fogoso. Helder tem ainda outro sonho: ele se imagina o Papa jogando a tiara no Rio Tibre e vagando enlouquecido pelas ruas de Roma, onde se encontra com prostitutas e ladrões. Dispensa embaixadores e núncios e vai morar num apartamento, cedendo o Palácio do Vaticano à UNESCO ou outro organismo internacional especializado em administrar museus.

Tudo isso se pode ler nas Cartas Circulares, cuja leitura aconselho vivamente. A cada página há alguma surpresa. Quando menos se espera aparece uma frase absolutamente genial, ou de uma franqueza incomum. Assim, num determinado momento, vendo como evolui o Concílio, Helder escreve: ‘com cardeais é humanamente impossível trabalhar’ (I, 3, 268).

Seus problemas com Roma se manifestam de modo crescente logo após a conclusão do Concílio em 1965, quando seu nome começa a ressoar pelo mundo e que ele recebe convites para falar pelo mundo afora acerca de um ‘outro’ mundo e de uma ‘outra’ Igreja. Chegam-lhe às mãos cartas de Roma solicitando que ele comunique ao bispo local o programa da viagem, os roteiros, os contatos programados, etc. Assim, ele só poderá se hospedar em casa de bispo ou casa religiosa. Com espanto, Helder constata que ele é considerado, em Roma, um ‘rival’ de ‘Pedro’. Quando vai percebendo que não é bem visto na igreja de Pedro e quando lhe chegam cartas inquisidoras de Roma, ele se sente profundamente atingido: Quando tenho a impressão que Roma não me entende ou não me apoia, sinto a terra faltar debaixo dos pés (Piletti, N., & Praxedes, W., Dom Hélder Câmara, Entre o Poder e a Profecia, Atica, São Paulo, 1997, 380). Piletti relata que, certa vez, uma carta de Roma provoca tal mal-estar no bispo que é necessário chamar um médico (ibidem, 427).

É com amargura que Helder percebe que mesmo o Papa Paulo VI, que se diz seu amigo, nutre desconfiança a seu respeito (um assunto que Helder sempre confidenciou com muita discrição). Depois da morte de Paulo VI, na década de 1980, a pesada mão do Papa João Paulo II se abate sobre o bispo brasileiro. E em 1984, quando ele renuncia por motivos de idade, Roma envia a Recife um sucessor que recebe o encargo de apagar todos os eventuais vestígios de uma emergente ‘outra’ Igreja. É a volta à ‘grande disciplina’.

 

Evangelho e religião.

 

A irrupção do evangelho na vida de Helder Câmara faz com que ele perceba, mesmo sem comentar o assunto por palavras, a distinção entre evangelho e religião. Ele ‘dança em corda bamba’, mas não explica como. Com sua habitual astúcia (peço perdão, caso essa palavra soar irreverente, mas não encontro melhor), ele sabe que explicitar verbalmente temas controversos costuma criar problemas. Mas seu teólogo preferido, o sacerdote belga José Comblin, que colabora estreitamente com ele entre 1965 e 1972, explicita a coisa com todas as palavras, por ocasião de uma Conferência pronunciada onze anos após a morte de Helder, no dia 18 de março de 2010 em San Salvador (América Central), no contexto da celebração dos trinta anos do martírio do bispo Romero (veja Revista Latino-Americana de Teologia, edição especial, n 80, maio-agosto de 2010, intitulado ‘Fé e política. Problema do método teológico’).

Eis o que diz José Comblin: ’A religião está baseada na distinção entre o sagrado e o profano. Mas Jesus não faz essa distinção. Ele veio para mostrar o caminho para que o sigamos. Isso é o básico, é o evangelho. A maioria, dos que hoje seguem o cristianismo, não trilha o caminho de Jesus, mas está no outro polo, na religião, ou seja, se dedica à doutrina, ensina a doutrina, defende a doutrina contra os hereges e as heresias. Essa foi uma das grandes tarefas a partir do século IV: praticar os ritos e formar a classe sagrada, a classe sacerdotalT. Até Constantino (século IV) não havia distinção entre pessoas sagradas e profanas. Todos eram leigos. O clero como classe separada é uma invenção de Constantino. A partir desse momento só se fala em religião, como se a religião fosse a introdução ao evangelho. Mas a diferença é fundamental: o evangelho se vive na vida real, material, social, enquanto a religião se vive num mundo simbólico. Tudo é simbólico: doutrina, ritos, sacerdotes. As religiões estão sempre associadas a uma cultura. Por exemplo, a religião católica atual está ligada à subcultura clerical romana que a modernidade marginalizou, que está em plena decadência porque seus membros não quiseram entrar na cultura moderna. O evangelho é renúncia ao poder e a todos os poderes que existem na sociedade. A religião busca o poder e o apoio do poder’. Com essa citação, que explicita de modo cabal como opera, no fundo, a irrupção do evangelho na vida de Helder Câmara, termino este texto.