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Genildo Santana

A imagem é da filósofa Viviane Mosé: “Nada mais parecido com uma ruina do que uma construção”. E, de fato, ruina e construção se parecem, podem ser confundidos, imbricam-se na imagem, na paisagem. A ruina é o fim de algo que foi um dia. A construção é o começo de algo que um dia será. A construção é criação, a ruina, destruição. Assim como na Bíblia que começa com a criação do mundo e finda com um apocalipse final. A ruina fala do passado. A construção fala do futuro. Tudo que hoje é ruina, um dia foi construção. Tudo que se constrói, constrói-se para a ruina. Da ruina, algo se constrói. O novo, o inusitado. Tanto a ruina quanto a construção são devires. A construção já pede, em si, a ruina e a ruina se move para uma construção.

Há tempos vem repetindo Frei Betto: “Não estamos em uma época de mudanças, mas numa mudança de época”. Semelhante ao século XVI, há um mundo em ruinas e um mundo que se constrói. Os paradigmas são questionados, velhos modelos são tombados, demolidos e, em suas ruinas, novos paradigmas, novos modelos são erguidos, semelhante à Fênix da mitologia, que renasce das cinzas. Das cinzas de um velho mundo, ergue-se um mundo novo.

Entre a ruina de um velho mundo e a construção de um novo mundo, estamos nós. Perdidos entre a ruina e a construção. Ignorantes de onde termina um e começa outro. Espantados com a construção, mas olhando saudosamente para a ruina. Tentando apegar-se a algo, semelhante ao náufrago que busca um apoio para não morrer no mar da existência.

Nessa construção de um mundo que se ergue, um paradigma como a pluralidade se afirma em todos as áreas. O pensar plural – que encontra resistência também em todas as áreas – finda por ser um dos mais fortes pensamentos da atualidade. Põe por terra o velho modelo grego da dialética entre sujeito-objeto. Algo que o filósofo argentino Enrique Dussel já o fez ao introduzir o conceito da Analética, um novo método de pensamento crítico integral sobre a realidade humana.

Nessa lógica, um exemplo é que não cabe mais a condenação a homossexuais, prostitutas, inclusive por parte da Igreja Católica e das demais instituições religiosas, que condenam tanto quanto. Cumpre á igreja repensar seus conceitos, sob o risco de perder o bonde da história, como se diz. Já não cabem práticas outrora aceitas, mas hoje condenáveis, dos pontos de vista ético, cultural, epistêmico, religioso, cristão. Uma dessas práticas é a negação da comunhão a um rebanho enorme por motivos sexuais. Não falamos em relativizar ou flexibilizar. Falamos em mudar mesmo. Erguer outra prática, outra ideia sob as cinzas de uma prática que não encontra justificativa plausível. Outra mudança urgente, nesse mundo que se ergue é a ordenação de mulheres. Por quanto tempo será adiada? Por que esse medo da mulher? Nós o sabemos, historicamente, não é?

O pensar plural implica uma política democrática que o viabilize. Esse modelo político atual não encontra sustentabilidade ética, moral. Há que se mudar esse fazer político. Tudo que se propor no modelo neoliberal não adianta enquanto persistir esse modelo neoliberal. Como dizia Paulo Freire, “ou nos salvamos juntos ou pereceremos”, no neoliberalismo, ou o matamos ou pereceremos todos juntos. Não há alternativa humana, cristã possível de coadunação ao neoliberalismo, pela contradição de ser ele desumano e anticristão.

Uma educação sustentada em velhas bases também não encontra eco numa nova construção. O modelo educacional está ultrapassado por ter sido invadido pela lógica consumista, capitalista, neoliberal. Ouvimos até expressões de que alunos são clientes. A mesma Viviane Mosé, pensando a educação, sinalizou que nossas escolas têm muitas características de fábricas e de prisões. Críticas feitas, inclusive, por Louis Althusser no belo livro Aparelhos Ideológicos do Estado, nos anos 70 do século passado. Uma nova educação para essa novo mundo que se constrói. Não uma educação baseada no mercado, na Teoria da Sinalização, que apregoa que a educação deve sinalizar ao mercado quem está apto a ele ou não.

Conceitos como Misoginia, Homofobia, Alteridade, Machismo, Racismo, Homem Cis, Queer, e muitos outros afins, vieram para, através de práticas concretas, mudar a ética, a cultura, as posturas em relação ao próximo, como diz a Bíblia, ou ao Outro, como diz a filosofia. Quem os aprende, apreende, apropria, dá um passo nessa nova construção que ora se ergue.

Nesse passo, cumpre que as Instituições Sociais – termo caro a Durkheim – também se apropriem desses conceitos e dessas práticas. Principalmente as Instituições religiosas, que tem uma forte tendência ao conservadorismo desumano e anticristão e, apegados a leis ou códigos éticos seculares, não se abrem ao novo e, pior, condenam ao Xeol, inferno, à Geena, os que apregoam e vivem tais conceitos.

A política, como centro da vida social, que regula a vida das pessoas, tem também que mudar seus conceitos e suas posturas. Ou por força de lei ou por força de revolução. Não uma revolução como as tradicionais, mas essa revolução que molda aos poucos as almas mais resistentes. Não foi algo parecido que Cristo fez e os primeiros cristãos fizeram na Roma antiga? A Ressurreição de Cristo, já disse um poeta, foi uma tremenda de uma revolução. Que imagem bela! Que novo foco para a Ressurreição: Uma revolução que acabou sendo um dos pilares da queda do milenar Império dos Césares.

Cultura cumpre papel importante nesse processo. Hemos de demolir conceitos culturais segregadores, convencionais, que disseminam morte, dor, pranto, angústia. Essa cultura da etnia branca teria e tem muito que aprender com a cultura africana, indígena. Ailton Krenak, líder indígena, ambientalista, filósofo, poeta e escritor brasileiro da etnia indígena crenaque, desponta na atualidade como um dos maiores pensadores contemporâneos. Grada Kilomba, filósofa portuguesa, vem encantando o mundo e pedindo para passar.

É uma mudança de época, como diz Frei Betto. E uma mudança de época atordoa quem está em meio à ruina e quem está tentando uma construção.

Entre a ruina e a construção encontramo-nos todos. Conscientes ou não, estamos envolvidos nesse processo. Passivamente ou ativamente, todos sofremos as consequências do desmoronamento e da reconstrução.

Oxalá, que entre um e outro, aprendamos a admirar a ruina e a construção. Admirar com espanto mesmo. Admirar, mirando junto mesmo. Pois “ou nos salvamos juntos ou juntos pereceremos”.