Alder Júlio Ferreira Calado

 

Os Modernistas acabaram por impingir à Idade Média um designativo que não lhe faz justiça: teria sido um longo período de trevas. Como toda época, também o Medievo comporta luzes e sombras; umas mais do que outras. É de justiça contestar essa carga pejorativa ainda hoje imputada à Idade Média. Com efeito, a Baixa Idade Média comporta, mais que a Modernidade, marcas luminosas sobremaneira edificantes, justamente por expressarem a face tenebrosa então vigente.

Do século XII ao século XV, produziram-se durante esse período, ocorrências excepcionais, dentre as quais aqui nos cingiremos aos movimento pauperísticos (também chamados de pobres de Lyon) especial (mas não exclusivamente) no que diz respeito aos aspectos confluentes e eventualmente dissonantes presentes nas experiências profético missionárias protagonizadas pelos Valdenses e pelo legado de Francisco de Assis e seus primeiros companheiros e futuros seguidores (Albigenses, os “Apostolici”, Segarelli, Fra Dolcino, Begardos, Beguinas, reformadores, como Wyclitt, Jan Hus, Thomas Müntzer, sem esquecermos, noutro plano, a saga irreverente dos Goliardos…).

Como sói ocorrer, em situações similares, 1) começamos por fornecer alguns elementos axiais que compõem o cenário sócio-histórico do período-alvo destas linhas; 2) trazemos sucintamente traços biográficos e do legado das figuras de maior referência dos movimentos populares da época em estudo; 3) Vamos pôr em relevo alguns pontos de “afinidades eletivas” (Weber) e de dissonância entre lideranças e bases dos movimentos destacados; 4) Tratamos de sublinhar certas lições que possam inspirar os movimentos populares da atualidade, frente aos desafios hodiernos.

 

1. Traços axiais da Baixa Idade Média

 

Tal qualquer outro período histórico , também a Baixa Idade Média conheceu fatos e episódios sombrios dentre os quais as cruzadas sangrentas, a violenta teocracia conduzida pelos hierarcas (papas, bispos…), a famigerada Inquisição (que foi ainda mais grave nos inícios da Idade Moderna, na Espanha e Portugal), o próprio modo de produção então dominante (o feudalismo). Ao mesmo tempo, importa relembrar um conjunto alvissareiro de fatos e acontecimentos de notória relevância, quer de caráter econômico, quer de ordem política, quer de natureza cultural. Há que, com efeito, se tomar em conta o processo dos próprios modos de produção então vigentes. O sistema feudal foi cedendo terreno à germinação de sementes de um capitalismo comercial - o Mercantilismo - , graças ao crescente processo de aparecimento de pequenos centros urbanos, como as comunas. Estas passam a abrigar, progressivamente, crescentes segmentos da população rural - servos que se vão libertando dos grilhões feudais, que irão constituir um relevante contingente de artesãos, comerciantes ganham força, e sobretudo as desenvolvidas por grandes corporações atraindo no campo da navegação e das grandes viagens de além-mar.

 

No plano político, em dinâmica, relação com a esfera econômica e cultural, novos sujeitos históricos vão emergindo, e passam a disputar cada vez mais - e com vantagens crescentes - com os antigos senhores feudais. Estes ao mesmo tempo, passam a perder força no terreno cultural para o nascente sujeito histórico, caracterizado pela ascenso das atividades mercantilistas próprias do início do capitalismo. 

 

Cumpre, não menos, ressaltar, a qualidade de um outro segmento, representado por relevantes figuras femininas no transcorrer deste percurso. Trata-se, com efeito, de mulheres, de alto potencial crítico e criativo. Não por acaso tornadas invisíveis pela própria Modernidade, inclusive, por vezes, tendo suas obras apropriadas por nomes masculinos. Formam um grupo diversificado, no qual fazem parte sábias, cientistas (Trotula de Salerno, 1050-?, Hildegarda de Bingen, 1098-1179; e outras Damas da escola de Salerno, como Mercuriade, que escreveu 4 tratados De crisibus, De Febre pestilenti, De curatione vulnerum et De Ungentis, e outras médicas e cirurgiãs que eram professoras e deixaram vários tratados, do século XI ao XIV:  Rebecca Guarna, Maria Incarnata, Constance Calenda et Abella Salernitana), místicas (Elizabeth de Shonau, Marguerite d´Oignie, Margueirte d´Oingt, Marguerite Porète, Hadewijch d´Anvers, Machthilde de Magdebourg, Angela de Foligno, Béatriz de Nazareth, Cristina Ebner, Juliana de Norwich, Margery Kempe, Marguerite Porete, 1250-1310), exímias mulheres das Letras (Christine de Pizan (XIV- XV), Marie de France (XII) introduziu as fábulas na Literatura medieval, a partir de várias tradições, assim como o gênero "Lais", Trobairitz (XIII, XIV), alguns nomes: Béatrix de Dia, Azalis de Pocairages, . Sonetistas italiana século XIII: Compiuta Donzella, e também as poetisas de Al-andalus, do século VIII-XIV, ainda no sul da Espanha: Leonor Lopez de Córdoba (XIV). escritoras abadessas Roswita de Gandesreim (X), na Alemanha, introduziu o teatro na Idade Média, escreveu várias lendas hagiográficas, 6 peças e dois épicos. Na França, Heloísa no século XII, deixa cartas e Isabel de Villena, autora de Vita Christi.

 

2. A figura de Francisco de Assis e seus primeiros companheiros. 

 

No decorrer de mais de oitocentos anos, desde o aparecimento de Francisco de Assis, dele se tem escrito e relatado. Tem graças a um longo processo de domesticação, que chega até ao presente. Acerca de Francisco, tem prevalecido largamente uma narrativa fortemente etérea, “angelical” acerca desta figura, superestimando-se nele aspectos celestiais, por vezes descolados de sua humanidade, ao tempo em que se subestimam determinados traços humanos. Neste sentido, convém exercitamos uma leitura crítica, também, em relação de diversas de suas biografias. Como é sabido, pela sua relevância histórica, Francisco de Assis despertou especial interesse sobre sucessivas gerações, razão pela qual ele tem sido alvo de diversas biografias. A exemplo da elaborada por Tomás de Celano (1200 – 1265), e, bem mais recentemente, a elaborada por Inácio Larrañaga (1928-2013), autor de “O Irmão de Assis”, sem esquecer a instigante interpretação de Francisco de Assis feita por Jacques Le Goff (“São Francisco de Assis”). Percebemos um Francisco mais concreto, mais nuançado, que é urgente recuperar.

 

A cidade de Assis, situa-se na Itália, na região da Umbria, e do ponto de vista histórico, situa-se em uma encruzilhada, em um cenário dominantemente feudal, por outro lado, os primeiros passos em direção a um processo de urbanização, representado por pequenas aglomerações compostas de pequenos comerciantes, artesãos, e parte de servos da Gleba que conquistaram sua liberdade. Tratava-se de um pequeno centro urbano, que graças às atividades nele desenvolvidas, apresentava um movimento diferente de décadas atrás. Dentre as atividades presentes naquele pequeno centro, o comércio constitui uma atividade de referência, em especial o comércio de tecidos. Destas atividades ocupava-se também, Bernardone, o pai de Francisco, casado com dona Pica. Francisco, em sua infância e adolescência, criou-se nesta família de classe média alta, conhecida pela sua prosperidade comercial. Junto com os jovens de sua cidade de classe semelhante, Franscisco passa a liberar grupos de jovens voltados às noitadas, às diversões próprias daquela época. E assim ia vivenciando seus primeiros anos de jovem, em meio a uma mocidade encantada com as diversões e com as farras próprias da idade. Seu pai, Pedro Bernardone, por outro lado, ia prosperando fortemente em suas atividades de comerciantes de tecidos, inclusive, indo até a França para negociar. Enquanto isso, a mãe, dona Pica Bourlemont, mantinha a formação do filho do jeito que podia. Incomodava, talvez, saber do íntimo entrosamento naquelas farras. 

 

À certa altura de sua juventude, Francisco teve a experiência de enfermidade que começa a mexer com sua mente. Dias e meses de recuperação da enfermidade lhe foram bem propícios para fazer um balanço de sua vida e ter, pela primeira vez, um sentimento de apelo da parte de uma força que ele ainda não conhecia. Tratava-se de um primeiro momento de vocação, de apelo, convidando-o a experimentar uma outra vida, o que o fez tomar certa distância de seus amigos, para surpresa deles.

 

Em uma época em que predominavam os valores do feudalismo, uma prática corrente era a da cavalaria, isto é, uma carreira militar da qual os jovens da época participavam regularmente, em especial os pertencentes aos setores dominantes - caso de Francisco, e para tanto, tinham que exercitar a arte da cavalaria, a arte de preparação aos combates, em defesa e promoção dos interesses e valores atinentes, ora da nobreza, ora a hierarquia da Igreja Católica. Isto implicava uma associação que se fazia também, por meio de juramento de fidelidade àqueles para quem se dispunham a combater, na arte da cavalaria. Certa feita, graças a uma convocação feita aos cavaleiros da região, no sentido de combaterem um inimigo, a certa distância de Assis, formaram-se em fileira, vestidos com trajes específicos, e montados em seus cavalos, partiram para o combate. Ao chegarem à região conhecida como Spoleto, eis que o jovem Francisco se sente tocado por um apelo: desistir daquele combate e retornar a Assis. Sem compreender bem a natureza daquela apelo, Francisco se deteve a pensar no sentido daquele chamamento tão estranho, que implicaria a ruptura profunda com laços e promessas assumidas publicamente diante de seus companheiros de cavalaria. Como estes iriam receber a estranha decisão do amigo e líder Francisco? Certamente, o tratariam de desertor, de atitude de medo e covardia, valores profundamente contrários aos assumidos e testemunhados pelos que estavam prontos para o combate.

 

Assumindo então a decisão de não seguir para a batalha, Francisco retorna, assumindo também todas as consequências graves do julgamento de seus companheiros de cavalaria. Retornando à casa, empenha-se na meditação e no esforço de decifrar aquele sempre contanto com o carinhoso apoio de sua mãe, dona Pica. Nos dias seguintes passou a perceber a presença de muitos pobres, de muitos mendigos, a vaguearem pela cidade. Foi tomado de compaixão por esta gente. Francisco não tardaria em aproximar-se dele, tratando-os como seus novos amigos. De vez em quando, fazia questão de preparar em sua casa uma mesa farta, deixando sua mãe perplexa com tal atitude. Perplexidade que aumentava profundamente, ao ver chegarem em sua casa e sentarem-se à mesa preparada por Francisco, vários mendigos. Francisco já não se continha com chamá-los à sua casa. Tratava desde então, de se servir das riquezas do pai, levando aos mendigos roupa e comida farta.

 

Tal atitude não ficaria em segredo. Logo as notícias chegariam aos ouvidos do pai, o rico comerciante Bernardone, que passava a, não apenas estranhar, mas a proibir o filho de continuar desperdiçando os seus bens. Trabalho perdido. Francisco continuaria a fazer o mesmo, ainda que se preparando para punições mais fortes. Com a crescente oposição e perseguição do pai à sua atitude, ainda que, contanto Francisco com o apoio incondicional de sua mãe, Francisco toma a decisão de passar tempos fora de casa. Certa vez chega à conhecida capela ou Ermida dedicada a São Damião, e ao contemplar o crucifixo bisantino que havia na capela, sente-se profundamente impactado ao perceber o chamamento, no sentido de que ele cuidar-se de reformar aquela capela que se achava com fissuras em suas paredes. Tratou Francisco de falar com o padre que animava aquela capela, dele obtendo permissão para a reparação da capela. Não tardaria Francisco a voltar a sua casa, de lá trazendo uma sacola de dinheiro, para entregá-la ao capelão, como contribuição sua à reforma da capela de São Damião. Foi com profundo estranhamento que Francisco, ao abordar o capelão, sentiu que o capelão recusaria sua oferta, dizendo que a reparação se faria por meios pobres, com os braços de quem se dispusesse a reformar a capela. Impactado pela reação do capelão, Francisco cai em si e sente que o capelão tinha razão. Não hesitou em arremessar por perto da capela a sacola de dinheiro, dando a entender que estaria de acordo com a recusa feita pela capelão, razão pela qual, dali em diante, ele próprio se prestaria aos trabalhos de reforma, dispondo-se a chamar outras pessoas da região a se juntarem, na mesma perspectiva.

 

E assim, a vida daquele jovem filho de rico comerciante, foi se transformando fortemente, o que constitui um insulto ao pai, cujo plano era o de ter o filho como seu sucessor e herdeiro dos negócios da família. Não se conformando com a nova vida do filho, Bernardone convida uma turma para ir atrás de Francisco e trazê-lo de volta à casa, ainda que fosse coercitivamente, encontrando na capela de São Damião, os que o buscavam o trouxeram de volta a sua casa. Seu pai, Bernardone, não hesita em mandar colocá-lo num subterrâneo de sua casa. Ali posto Bernardone trata de trancar o filho naquela prisão, retirando inclusive a chave do cadeado, e proibindo sua mãe de libertar o próprio filho. Passados alguns dias de prisão no subterrâneo contanto apenas com alimentação fornecida pela sua mãe, esta, não mais aguentando tolerar tanta mágoa do pai contra o filho, toma a decisão de libertar o filho, assumindo posteriormente toda a carga de ira do seu marido. Mas Francisco estava de novo livre para a causa dos pobres.  

 

São diversos, por conseguinte, os episódios envolvendo o processo inicial de conversão de Francisco de Assis. Claro que não param no episódio da reforma da Capela de São Damião. Bernardone não se deu por vencido por contra da libertação de seu filho feita pela sua esposa, dona Pica. Continuou insistindo em combater o seu filho que ele considerava uma vergonha para a família, uma decepção profunda quanto aos planos que faziam em relação ao filho. Neste sentido, voltou a carga contra Francisco de Assis. Desta vez, expulsando-o definitivamente de sua casa. Um episódio comovente é aquele em que, não contente com expulsar o filho, exige-lhe publicamente que devolva tostão por tostão o que havia retirado da casa em benefício dos pobres e mendigos da cidade. Isto se deu publicamente, em um lugar em que 3 figuras se apresentavam ao povo que lotava a praça: um Bispo Dom Guido, o comerciante Bernardone e o próprio Francisco. Na ocasião, Bernardone relata ao Bispo o conjunto de exigências a Francisco, de devolver o que havia retirado de seus bens, para se desligar completamente do filho. Da parte do bispo, uma palavra de aconselhamento a Francisco, em quem confiava, mas concedendo ao pai as exigências que fazia ao filho. Francisco pede um tempo ao Bispo, enquanto retirando-se para perto, retira completamente sua roupa, pega a mochila de dinheiro e retorna até a cena pública. Dirigindo-se ao pai, devolve-lhe as roupas que vestia e a mochila de dinheiro que havia retirado de sua casa, para a reforma da Capela São Damião. A partir daí, o pai não tem mais a Francisco como filho e trata de persegui-lo, ainda que a distância. Sempre o via a peregrinar com mendigos pela rua, tratava de expressar seu desdém, sua maldição. Francisco e seus companheiros, perambulavam pelas ruas e aldeias, em busca de esmolas. Certa feita, comovido e entristecido pela dureza de coração do pai, convida um de seus amigos mendigos para a partir daquele momento, tornar-se uma figura paterna para Francisco. Sendo assim, sempre que o Pai aparecesse publicamente com suas invectivas dirigidas contra Francisco, aquele amigo mendigo passaria a expressar seu lugar de pai, neste momento, expressando uma especial proteção, junto a Francisco. 

 

Francisco prossegue e aprofunda seu serviço aos pobres de Assis e região, estreita os laços com os mendigos e os leprosos, que tomava como seus preferidos, por serem os preferidos do Reino de Deus. De início, experimentava certa dificuldade de se aproximar dos leprosos, apresentava alguma resistência, a ponto de chegar a mudar de lugar, quando percebia a vinda de um deles. Pouco a pouco, graças ao estreitamento de sua intimidade com o crucificado, passa a ter comportamento diferente: aproximava-se do leproso, abraçava-o e beijava-o. Comia com eles, sem mais sentir nojo, ao contrário, sentindo prazer da refeição pobre que consumia. 

 

Com o passar do tempo, Francisco chega a acolher alguns membros das comunidades vizinhas que pretendiam segui-lo mais de perto, o primeiro dos quais tendo sido, Pedro de Catão, em seguida Bernardo, Egídio, e outros se juntaram ao grupo pioneiro Franciscano.

 

Sua missão se concentrava no acolhimento e na ajuda aos pobres, aos mendigos, aos leprosos, bem como a oração e a peregrinação pelas aldeias vizinhas, pelas capelas, pelos eremitérios da região.

 

Nestas experiências, teve que enfrentar muitos momentos de grande adversidade. Os antigos amigos e o segmento mais abastado da população expressava não apenas descontentamento, mas adversidade contra Francisco e seus companheiros, dentre os quais: Bernardo de Quintavalle, Pedro di Catani, Sabatino, Morico, Egidio, João do Chapéu, Felipe, Masseo, Junipero, Ângelo, Silvestre e Leão... Eles tiveram que enfrentar muitas situações desta natureza, não bastassem as adversidades próprias de sua missão: o enfrentamento da nudez ou da pouca vestimenta, do frio, da neve, nos muitos caminhos e lugares  por onde peregrinavam: Assisi, Porciúncula, Cascia, Cittá di Castello, Foligno, Gubbio, Orviteto, Perugia, Terni, Spoleto, sem esquecer o famoso Monte Subásio.

 

Tanto na biografia de Celano, tanto na de Laranagña, podemos encontrar situações difíceis, espinhosas, também enfrentadas em relação à hierarquia eclesiástica. A comunidade Franciscana primitiva não tinha interesse em tornar-se uma instituição, ligada às congregações da Igreja Católica. Não era sua pretensão ordenar-se presbíteros, preferindo a pregação aberta nas praças e nas aldeias. Por sua vez, a hierarquia não permitia aos leigos, que pregassem o evangelho, além do fato de que a enorme maioria da população era analfabeta, sem conhecer nada do latim, língua oficial pela qual o próprio evangelho era transmitido. Isto implicava forçosamente em que apenas o Clero possuía o monopólio da leitura da palavra de Deus. Aos leigos só competia escutar, de segunda mão, o que a Bíblia lhes tinha a dizer. Neste sentido, vamos encontrar na primitiva comunidade Franciscana, um fiel empenho, em pregar a palavra de Deus, buscando, todavia, não exacerbar, a relação com as autoridades eclesiásticas. Nisto, tiveram comportamento diferenciado, outros movimentos que surgiram antes, durante e depois da comunidade franciscana primitiva. 

 

Vale a pena, agora, nos debruçarmos sucintamente sobre elementos da saga dos Valdenses. Veremos, a seguir, que as atitudes, dos pobres de Lyon, a exemplo dos Valdenses, Albigenses-Cátaros, dos Begardos, dos “Apostoloches”, das “Beguinas” e outros movimentos populares de inspiração evangélica, tiveram que enfrentar conflitos mais intensos, por conta de sua radicalidade, isto é, de sua indisposição a cederem as ordens das autoridades eclesiásticas. 

 

Assim aconteceu ao grande comerciante de Lyon, chamado Pierre Valdo (ou, Valdês) , que, tocado pelas lições do evangelho, especialmente, daquela passagem em que Jesus faz menção de que a riqueza é incompatível com o Reino de Deus - “Nenhum rico entrará no Reino dos Céus: é mais fácil um Camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um Rico se salvar.” 

 

Voltamos aos tempos de Francisco e de Pierre Valdo, é importante também rememorar outros que seguiram essa trajetória missionária profética. Uma dessas figuras é a de Gerardo Segarelli, e também em região não distante de Francisco, procurou seguir esta mesma linha. Inicialmente aceito em um convento franciscano para formação, foi avaliado inadequado para a liga franciscana. No entanto, Gerardo Segarelli continua prenhe de vocação franciscana. Um destes sinais é o de sua continuidade nesta vida, mesmo não sendo bem vindo a comunidade franciscana conventual, volta a frequentar a igreja franciscana e a entusiasmar-se com um quadro com uma cena apostólica que contemplava. Isto mexeu ainda mais com ele, e passou, daí por diante, a também testemunhar uma vida de pobreza, de fraternidade mais íntima com os pobres da época. Segarelli tem uma influência grande também em vários discípulos, dentro os quais o famoso frei Dolcino que, influenciado também pela ação profético missionário de Gerardo Segarelli segue também os seus passos, em busca de um testemunho mais tocante dos valores do reino de deus e sua justiça. 

 

Frei Dolcino era uma figura inteligente, intelectualmente bem preparada, conhecedor do latim, da oratória, vindo a tornar-se um pregador de excelência. Ao mesmo tempo, tinha um temperamento bastante motivador, de liderança, facilmente atraindo muitas pessoas a seu entorno, pela alegria e pela qualidade de conversa que ele irradiava. Frei Dolcino aprofunda essa relação com o povo dos pobres e passa, a exemplo de Segarelli e também de Francisco e outros, inclusive Valdo, a percorrer Aldeias, Cidades e Vilas, para pregar o evangelho na língua do povo. Como era leigo, não obtendo a autorização eclesiástica para a pregação, ele passa a ser perseguido, juntamente com os seus seguidores. Aumenta o grau de adversidade entre ele e as autoridades eclesiásticas junto com os reis que apoiavam a instituição eclesiástica e seus hierárquicos. Buscando ser fiel mais a Deus que aos homens, conforme está escrito nos Atos do Apóstolos, capítulo V, Frei Dolcino passa a expandir sua ação missionária por diferentes regiões da Itália. Em pouco tempo este movimento veio a ser conhecido, e muito presente em muitas áreas italianas. Crescia assim o movimento pauperístico liderado por Frei Dolcino. Além daqueles pontos já conhecidos, característicos de outros movimentos pauperísticos, também as comunidades que seguiam as orientações de Frei Dolcino tinham características semelhantes: entendiam que laços hierárquicos não constituíam a vontade de Jesus ou do Evangelho, mas tratava-se de uma criação dos homens, uma vez que os Evangelho chama e estimula a todos a viverem fraternalmente, em comunidades horizontais, em que todos e todas se sentissem emanados, e não superiores uns aos outros, também faz parte da pregação de Frei Dolcino a paridade de direitos entre mulher e homens. Isto foi ponto chave para o aumento sistemático da perseguição a este grupo liderado por Frei Dolcino. Com o apoio de reis e príncipes da época, monta-se um exército para perseguir e extinguir o movimento liderado por Frei Dolcino, o que vem a se aprofundar apesar da resistência de figuras do movimento. Mesmo assim, o movimento revelava um reconhecimento amplo das comunidades cristãs daquela região.

 

Outro movimento que surgiu não distante destes foi o movimentos dos Cátaros (palavra derivada do grego “catarói”, isto é, os puros, denominação atribuída pelos outros aos membros deste movimento). A exemplo de outros movimentos pauperísticos, também os Cátaros conhecidos ainda como Albigenses, se expandiram na região sudoeste da França, mas alcançando outros países, além da França.

Importante ainda lembrar o Movimento dos Begardos. Era um agrupamento de padres caracterizados pelo sentimento de pobreza evangélica. Eram próximos das beguinas, um movimento constituído apenas das mulheres que, não querendo vincular-se oficialmente a uma instituição eclesiástica, por meio da pronúncia de votos, buscavam reunir-se e vier em pequenas casas com duas, três pessoas e dedicarem-se aos trabalhos manuais, como sustentação de sua vida, e dedicar um tempo aos trabalhos junto aos pobres, aos doentes, às crianças, aos idosos. Trata-se de um movimento que teve enorme repercussão até os dias de hoje, ainda que assumindo formas diferenciadas. Por exemplo, não é demasiado comparar as atuais pequenas comunidades de religiosas inseridas no meio popular (PCIS) ao que testemunhavam as beguinas: vida de liberdade evangélica, de pobreza, de partilha, de serviço à causa dos pobres.

 

Ainda voltando, de passagem, ao Movimento dos Valdenses, importa assinalar que atravessou séculos, vencendo todo tipo de perseguição. Ainda hoje, este Movimento se faz presente em vários lugares do mundo, especialmente, na Europa e no continente americano, particularmente, numa região entre Uruguai e Argentina, onde a Igreja Valdense tem uma aceitação notável, haja vista a qualidade dos cultos que realiza semanalmente, e, sobretudo, pela sua atuação militante das causas de libertação dos pobres.

 

3. Confluências e dissonâncias entre o primeiro grupo franciscano e os demais grupos pauperísiticos da Idade Média

 

Importa, nas linhas que seguem, identificar alguns episódios que demonstram profunda afinidade entre a proposta de Francisco de Assis e dos demais movimentos pauperísticos da Idade Média. Quanto às confluências, podemos destacar:

 

  • O entendimento de que o Reino de Deus está presente entre os pobres, entre os marginalizados, entre os explorados, por conta da injustiça reinante na organização social de cada época, especialmente, durante ou dentro das sociedades de classe, ainda mais impactante nos quadros da sociedade capitalista;

  • Outro ponto de profunda afinidade entre tais movimentos consiste na centralidade dos pobres, em todas as suas atividades;

  • A horizontalidade das relações entre todos os membros do povo de Deus, sem privilégio de uns em detrimento dos demais. 

  • O enfrentamento dos poderosos, dos ricos, que ao longo dos séculos, têm se insurgido contra os pobres, ainda que diferendo em grau de um para outro movimento;

  • a defesa feita por estes movimentos da causa dos pobres não se limita ao mero sentimento de dó ou de compaixão, tomando os pobres como alvo de esmolas, mas, firmando com eles um compromisso de sua libertação de todos os laços de exploração, de opressão, de marginalização, no horizonte da construção de uma sociedade politicamente participativa, economicamente equânime, culturalmente diversa, e em harmonia com a Mãe Natureza..

  • Pelo menos alguns desses movimentos - é o caso do animado por Frei Dolcino - preconizavam e testemunhavam a paridade de direitos entre mulheres e homens. 

 

Após havermos ressaltado com força diversas confluências observáveis entre o nascente Movimento animado por Francisco de Assis e, por outro lado, vários movimentos pauperísticos do Medievo, cumpre-nos agora apontar diferenças e eventuais dissonâncias entre os mesmos. Uma primeira distinção a ser assinladas tem a ver com a postura de seuss principais animadores e integrantes  de Assis e seus respecitivos Movimentos. Enquanto companheiros preferiam valer-se de um tom de conciliação VERBAL  (e mesmo de gestos visíveis de aparente composição, os demais movimentos pauperísticos não costumavam fazer qualquer concessão a seus perseguidores, fossem eles eclesiásticos ou da nobreza feudal.

Outro aspecto convém pôr em relevo. Embasados em elementos informativos fornecidos por Inácio Larrañaga, chama-nos a atenção o fato de, em diversas ocasiões de encontros com autoridades eclesiáticas, o comportamento de Francisco de Asssis, desde que acuradamente interpretado antes de acenar para uma obediêcnia incondicional, constituía meio insólito, d einduzir seus interlocutores a se olharem no espelho do Evangelho que Francisco anunciava pela sua incontestável fidelidade ao Evangelho.

 

4. Lições a recolher pelos Movimentos populares contemporâneos, frente aos atuais desafios:

Nunca é demais assinalar que um fecundo exercício da memória histórica não deve implicar qualquer ideia de reprodução de fatos passados. Vivemos um contexto bem diverso, ainda que contendo características comuns a épocas passadas. É assim que ousamos assinalar alguns pontos daqueles movimentos medievais que podem ser úteis ao enfrentamento dos atuais desafios.

Uma primeira lição a recolher do legado daqueles movimentos tem a ver com a primazia que davam ao pobre, não como alvo de dó, mas como sujeitos de direito, protagonistas de sua libertação.

Outro aspecto a não perder de vista: as mudanças desejáveis não se alcançam de cima para baixo ou de fora para dentro: elas são produto das lutas dos “de baixo”. Aos de baixo, quase sempre, incumbe o protagonismo das ações transformadoras. Como toda regra comporta exceções, sabemos da presença e especial atuação de figuras antes provenientes de estratos dominantes, a desenvolverem um papel de excelência em relevantes processos de transformações histórica-sociais de reconhecida alcance mundial.

Atrai especial atenção o modo como os movimentos pauperísticos se punham diante de todo tipo de propriedade , a ela se opondo radicalmente. Lembremo-nos de que nem Marx nem Engels - para mencionar apenas os principais nomes do marxismo, não se opunham a qualquer propriedade, mas apenas à propriedade privada dos bens de produção. Acerca desta radical oposição testemunhada por aqueles movimentos pauperísticos, vale rememorar diversos relatos de seus biógrafos, a registrarem diversos episódio em que lideranças e demais integrantes daqueles movimentos a se servirem, sem qualquer remorso, dos bens encontrados em propriedades privadas, a exemplo de como se comportavam as primitivas comunidades cristãs: “Ninguem tinha como sua as coisas que possuia mas tudo lhes era comum” (At 4, 32).

Sem qualquer apelo a uma reprodução marxista descontextualizada de tais práticas, importa, sim, recolher o espírito comunitarista, inclusive como horizonte a se repensar a urgência de uma governança mundial, cujos passos devem ser exemplo a perseguir, ante os atuais desafios, sempre em respeito e harmonia com a dignidade do planeta e toda a comunidade dos viventes.

Pelas amargas experiências vividas durante décadas, durante séculos, por sucessivos governos centrados nos Estados nacionais sob o comando das grandes transnacionais (petróleo, armamentos, agronegócio ...), especialmente dos grandes grupos financistas, é chegado o momento de ousarmos dar passos em direção a uma governança mundial, tendo os movimentos sociais populares e as organizações de base de nossas sociedades como principais protagonistas das mudanças a serem operadas, com vistas a um novo modo de produção, de consumo e de gestão societal.



Textos e vídeos (re)visitados:

 

CALADO, Alder J. F. Memória histórica e Movimentos Sociais; ecos libertários de heresias. João Pessoa: Ideia, 1999.

 

______, https://textosdealdercalado.blogspot.com/2020/09/o-movimento-das-beguinas-interfaces-e.html

 

COMBLIN, Joseph. Vocação para liberdade. São Paulo: Paulus, 1998.

______________. A Profecia na Igreja. São Paulo: Paulus, 2008.

______________. O Espírito Santo e a Tradição de Jesus. São Bernardo do Campo-S: Nhanduti, 2012.

 

DEPLAGNE, Luciana Calado e BROCHADO, Cláudia Costa (Org.). Vozes de mulheres da idade média. João Pessoa, Editora UFPB, 2018.

 

DUBY, Georges; PERROT, Michelle (dir.). História das mulheres no ocidente. Volume 2: A Idade Média. Porto: Afrontamento, 1990.

 

ÉPINAY-BURGARD, G, ZUM BRUNN, Émilie. Mujeres trovadoras de Dios. Barcelona: Paidós Bolsillo, 2007.

 

LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente Medieval. Petrópolis: RJ, 2016 (1964).

 

REZENDE, Maria Valeria. A vida rompendo muros: carisma e instituição. As pequenas comunidades religiosas femininas inseridas no meio popular no Nordeste. João Pessoa: Manufatura Editora. 2002.

 

WOENSEL, M. J. F. Van ; WOENSEL, M. V. . Carmina Burana - Canções de Beuern. São Paulo: Ars Poetica, 1998. 

 

Fra Dolcino e Segarelli. Due martiri italiani. I.Montanelli: Controcorrente.

 

Un eretico medievale: Fra Dolcino

 

Au coeur de l'histoire: Les vaudois (Franck Ferrand)

 

Les Vaudois, d’un exil à l’autre

 

*- Texto resultante da degravação-digitação feita por Heloíse Calado Bandeira, Gabriel Luar Calado Bandeira, Águida Ferreira Calado, Eliana de Freitas Calado e Luciana Calado Deplagne. Estas últimas também contribuíram com sugestões. A todas essas pessoas, a expressão do meu reconhecimento. 

 

João Pessoa, 25 de Janeiro de 2022. 

 

Comemoração da conversão de Paulo Apóstolo.