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Eduardo Hoornaert.

Gostaria de abordar aqui, numa breve nota, o tema do cristianismo ‘moreno’ a partir de um livro já publicado mais de vinte anos atrás, mas que me parece conservar sua atualidade. Trata-se da obra de um autor africano praticamente desconhecido entre nós, chamado L. Sanneh, intitulado Translating the Message: The Missionary Impact on Culture (Orbis Books, New York, 1989. O trabalho tem importantes pontos de novidade em relação à reflexão em torno do cristianismo moreno, um tema que trabalhei em meu livro O Cristianismo moreno do Brasil (Vozes, Petrópolis, 1991). Gostaria de apresentar aqui brevemente uns pontos de reflexão, apresentados por L. Sanneh.

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A história do cristianismo, em sua inteireza, tem como característica fundamental a enculturação, ou seja, a tradução de uma mensagem expressa originalmente numa cultura muito distinta da nossa, a cultura judaica. Para entender Sanneh, é preciso mudar o foco do que entendemos por trabalho missionário. Não se trata da transmissão de uma mensagem ‘pré-fabricada’ a pessoas que não a conhecem, mas de um intercâmbio de valores e visões do mundo. Sanneh propõe nem mais nem menos que se coloque ‘a metodologia missionária de cabeça para baixo’ e que se aprenda, portanto, a olhar o mundo da missão cristã ‘de baixo para cima’, do indígena ao missionário branco, do escravo negro ao catequista branco, do povo comum ao sacerdote. Para indicar essa reviravolta metodológica, Sanneh usa uma terminologia um tanto inusitada entre nós: vernacularização, ‘translatabilidade’, ‘princípio vernacular’, fator língua, dinâmica tradutora, enfim, uma terminologia bastante distante do linguajar da teologia aqui na América latina. Essa reflexão ‘africana’ é muito importante na hora que corre, pois sempre mais se percebe a relevância de uma maior aproximação entre a América Latina e a África, onde as igrejas cristãs ‘históricas’ (catolicismo, protestantismo histórico) são minoria em muitos países, e, portanto, usam um discurso diferente do nosso, mais modesto e mais penetrante. Nós podemos aprender muito com esse discurso mais modesto, pois aqui na América latina o cristianismo ‘histórico’ sempre esteve no centro da cena e ocupou um lugar central na vida social. É por isso, exatamente, que aqui na América a sintonia entre evangelho e cultura não se realizou. O cristianismo nos chegou com a conquista colonial, um movimento político, e aqui sempre sofreu de um grave desequilíbrio: políticos em demasia, tradutores da mensagem pouquíssimos e mesmo assim discriminados, esquecidos, despercebidos (História do Cristianismo na América Latina e no Caribe, de minha autoria, Paulus, São Paulo, 1994, p. 13).

O cristianismo europeu não soube e não quis dialogar com os valores culturais existentes aqui e continuou importando tudo, durante séculos: sacerdotes, religiosos, religiosas, dinheiro, métodos pastorais, o calendário litúrgico, o canto, a arquitetura das igrejas, o dinheiro. Até a comida foi importada, em certos casos. Parecia que nada que proviesse da América tinha valor. E hoje é difícil mesmo descobrir esses valores, pois séculos de desprezo pelas culturas da terra criaram vícios enraizados. 

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Mas as coisas estão mudando rapidamente. As igrejas cristãs históricas estão perdendo pouco a pouco a tradicional hegemonia. Atualmente o processo já passa por outros caminhos. O cristianismo estilhaçado, pressentido por Michel de Certeau nos idos de 1974 (Le Christianisme éclaté, Paris, Seuil, 1974), é uma realidade hoje: podemos ouvir o estilhaço um pouco por toda parte. A impressão é que as pessoas estão empenhadas atualmente em construir as ‘casas religiosas’ que lhes convêm, a partir de uma ‘bricolagem’ religiosa extremamente eclética e precária, com ‘software’ proveniente de diversos regimes religiosos. Um cristianismo moreno, miscigenado e mestiço de grande criatividade (e muita controvérsia).

É verdade que essa ‘bricolagem’ não é precisamente nova na história do cristianismo, ela sempre constituiu a mais importante resposta popular diante da dominação colonial no passado e hoje continua criando condições de vida para milhões de pessoas espalhadas pelos bairros pobres desta América, abandonadas pelos poderes públicos. Ela mereceu quase nenhuma atenção por parte dos missionários, preocupados em cobrir a imensidão do território com suas redes institucionais.

Penetrando mais ainda na história podemos verificar que essa ‘bricolagem’ pertence ao próprio tecido histórico do cristianismo. O ‘jeitinho’ sempre existiu, e salvou a vida do evangelho diante da clericalização burocrática que sempre a ameaçou. Temos na história alguns casos famosos em que uma evangelização não burocratizada teve grandes sucessos, como na Irlanda antes do século IX, quando os druidas, antigos sacerdotes entre gauleses e bretões, uma vez convertidos, se tornaram os primeiros tradutores da mensagem de Jesus para seu povo. Excepcional também o caso da Etiópia, onde a tradução do evangelho foi feita com tanta identificação cultural que o cristianismo aí -o primeiro cristianismo negro da história- praticamente conservou suas formas originais até hoje. Um terceiro exemplo de enculturação bem sucedida, segundo Sanneh, foi a missão eslava dos missionários bizantinos Metódio e Cirilo, junto às populações em torno do rio Danúbio. Aí a missão conseguiu estabelecer laços de íntima sintonia com as aspirações dos povos eslavos em tornar-se mais unidos e fortes. Os missionários bizantinos criaram inclusive uma língua escrita, o eslavo, para difundir com maior facilidade a mensagem, uma língua que continua sendo usada até os dias de hoje.

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É nesse contexto que as reflexões africanas de Sanneh nos são úteis: ‘A relação entre cristianismo e revitalização da cultura indígena (leia: popular em geral) é um dos temas mais subestimados no estudo da expansão do cristianismo, embora na África e alhures ela esteja na cara da gente a cada curva do caminho’ (op. cit. p. 185). Infelizmente, não dispomos de uma tradução portuguesa desse trabalho. Espero que esta breve apresentação consiga mostrar algo da riqueza de uma reflexão africana em torno do cristianismo negro, indígena, moreno, mestiço.